UNEGRO - União de Negras e Negros Pela Igualdade. Esta organizada em de 26 estados brasileiros, e tornou-se uma referência internacional e tem cerca de mais de 12 mil filiados em todo o país. A UNEGRO DO BRASIL fundada em 14 de julho de 1988, em Salvador, por um grupo de militantes do movimento negro para articular a luta contra o racismo, a luta de classes e combater as desigualdades. Hoje, aos 33 anos de caminhada continua jovem atuante e combatente... Aqui as ações da UNEGRO RJ

domingo, 9 de outubro de 2011

Intolerância religiosa no Brasil


A chamada teologia da batalha espiritual tomou força nas duas últimas décadas, junto com o crescimento do universo evangélico que inclui hoje forte poder midiático e político. Essa expansão evangélica no Brasil também fez eclodir atos de intolerância religiosa praticados contra as religiões afro-brasileiras, principalmente partindo de neopentecostais. Desde que o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), o bispo Edir Macedo, declarou guerra aos "orixás, caboclos e guias" numa clara alusão aos elementos dos rituais do candomblé, da umbanda e do espiritismo, jornais, revistas e a mídia em geral têm noticiado os constantes ataques sofridos pelas religiões de matriz africana. O demônio iurdiano leva o nome de "exu", "pomba-gira", "encosto", ou seja, para esses neopentecostais tudo que se refere às religiões afro-brasileiras é contagioso; é obra do diabo e deve ser evitado por aqueles que optaram por "aceitar Jesus".

Essa coletânea organizada por Vagner Gonçalves da Silva trata justamente desta temática: os efeitos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro. São oito artigos cuja abordagem dá ênfase às questões sobre a intolerância religiosa, através da análise de eventos polêmicos sobre ações neopentecostais, tais como o tão noticiado "chute na santa" praticado por um pastor neopentecostal contra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e a aprovação da lei de proteção aos animais no Rio Grande do Sul, que restringia o sacrifício de animais nos rituais das religiões de matriz africana.

O artigo de Ari Pedro Oro abre a coletânea e aborda as reações afro no Rio Grande do Sul contra os atos de intolerância praticados por iurdianos. O autor mostra que os ataques desses neopentecostais são mais fortes do que as reações de suas vítimas, ou seja, a resposta dos membros de cultos afro-brasileiros ainda é muito branda diante das ações de intolerância por eles sofrida. Oro enfatiza três aspectos característicos da IURD: seu caráter "religiográfico", "exacerbatório" e "macumbeiro". Religiográfico porque "construiu seu repertório simbólico, suas crenças e ritualísticas incorporando e ressemantizando elementos de outras religiões" (:33); exacerbatório pelo montante de publicações, programas de TV, templos suntuosos e todo um império que constituiu hoje a IURD no Brasil e no exterior; e macumbeiro porque empresta termos das religiões afro-brasileiras ("trabalho", "encosto", "carrego", "descarrego" etc.) e os ressemantiza para sustentar seu discurso.

Alejandro Frigerio faz um mapeamento das disputas entre neopentecostais e evangélicos no Uruguai e na Argentina num quadro histórico comparativo. Aponta a importância da análise dos conflitos entre esses dois grupos religiosos e sugere que sua gênese está relacionada aos níveis de legitimidade e visibilidade social alcançados por cada um deles em cada sociedade. Frigerio enfatiza, com base em análise desenvolvida no estudo de movimentos sociais, que os líderes religiosos preocupados com a legitimação social da religião devem desenvolver "marcos interpretativos coletivos" que impulsionem a construção de "identidades coletivas mobilizadas para a ação" e para isso devem mobilizar "recursos econômicos e culturais" no interior e no exterior de sua religião, assim como aproveitar a "estrutura de oportunidades" do meio social no qual se desenvolvem (:73).

Ao tratar dos "Pentecostais em ação", Ricardo Mariano destaca as razões do combate pentecostal aos cultos afro-brasileiros, sendo este combate sua principal estratégia de evangelização. Para Mariano, as principais razões e justificativas pentecostais são "a perspectiva dualista, a interpretação bíblica e a defesa contumaz do resgate da difusão de crenças e práticas do cristianismo primitivo" (:129), tudo isso voltado para "disseminar a crença na ação e no poder maléficos do diabo e dos demônios sobre a humanidade; realizar rituais exorcistas; evangelizar tendo como foco a missão concomitantemente conversionista e salvacionista e de combate às forças demoníacas e a seus agentes e representantes terrenos" (:130). Mariano discute ainda, de forma sucinta, conceitos sobre tolerância, intolerância, discriminação e liberdade religiosa.

A análise de Emerson Giumbelli recai sobre a qualificação da vitimização dos afro-brasileiros, e nos faz refletir sobre as configurações e as articulações entre o campo religioso e a sociedade no Brasil. Giumbelli toma como ponto de partida um material encontrado através de pesquisas no Centro de Referência contra a Discriminação Religiosa (CRDR) no Rio de Janeiro, órgão vinculado ao executivo estadual cujo objetivo é prestar serviços relativos à assistência jurídica em casos de conflitos religiosos. O autor reflete criticamente sobre a categoria "fundamentalismo" como referência para pensar a intervenção da religião sobre a sociedade, tomando como exemplos a Índia, os Estados Unidos e o Brasil.

Em "Dez anos do chute na santa – a intolerância com a diferença", Ronaldo Almeida retoma a análise do episódio ocorrido em 1995, transmitido pela Rede Record de Televisão, durante um programa religioso no qual um pastor da Igreja Universal do Reio de Deus chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida justamente no dia de sua comemoração (12 de outubro). A cena foi retransmitida durante o Jornal Nacional da Rede Globo, o que intensificou o conflito com a Igreja Católica. Almeida analisa ainda, a relação da Igreja Universal com as outras religiões e prescreve que a forma de lidar com a diferença pode levar "às vias da intolerância dos ritos nas idéias e nas relações sociais face a face" (:187).

O argumento utilizado por Vagner Gonçalves da Silva segue uma linha comparativa dos termos utilizados pelo neopentecostalismo, catolicismo e pelas religiões afro-brasileiras através da análise da relação socioestrutural existente entre esses campos religiosos. Silva vai buscar inspiração em autores clássicos da antropologia tais como Lévi-Strauss e Marcel Mauss, chegando a uma interessante análise sobre a eficácia simbólica do universo neopentecostal.

Marcelo Natividade e Leandro de Oliveira analisam como diferentes religiões (pentecostais, católica e afro-brasileiras) reagem às práticas homossexuais de seus adeptos. Os neopentecostais têm definido a homossexualidade como um desvio de conduta que pode ser revertido com a conversão, transformando-os em "ex-homossexuais" (:262). Além disso, trazem ao debate o posicionamento oficial da Igreja Católica e seu conservadorismo diante do tema. Por outro lado, os afro-brasileiros são mais flexíveis diante da homossexualidade. Os autores fazem, ainda, uma revisão das pesquisas em ciências sociais e analisam discursos pastorais cristãos sobre as estratégias de regulação da sexualidade presentes nessas religiosidades e os discursos produtores da homofobia.

Fechando a coletânea, o artigo de Hédio Silva Jr., único jurista dentre os autores, faz menção ao caráter legal da intolerância, trazendo à tona um histórico da presença do tema nas constituições federais até a atual de 1988. Além disso, enfatiza a necessidade de recorrer à justiça sempre que alguém sinta seu direito à liberdade de crença violado, ou seja, acaba por levantar a bandeira em defesa da liberdade de crença e de culto como um direito que deve ser assegurado a todo e qualquer cidadão, seja ele católico, espírita, evangélico ou adepto de alguma religião de matriz africana. Hédio, inclusive, mostra que já tem em seu histórico profissional como advogado a procedência de algumas ações impetradas na justiça em favor da garantia da liberdade religiosa de seus clientes, em sua maioria de afro-brasileiros que sofreram alguma restrição ou constrangimento vinculado à sua prática religiosa.

O livro, por fim, traz uma vasta reflexão sobre o papel atual dos neopentecostais no cenário religioso. Muito já se discutiu sobre os efeitos que suas ações vêm causando na sociedade brasileira. Se há uma estrutura e uma eficácia simbólica, como diz Silva em seu artigo, movendo o sucesso do empreendimento neopentecostal, isso sugere a importância dos trabalhos que envolvem a análise de seus cultos, de seu discurso, bem como da atuação de seus agentes na política e na mídia em geral. Esta coletânea recupera trabalhos importantes sobre a atuação da Igreja Universal do Reino de Deus e é leitura obrigatória para aqueles que de alguma forma se aventuram a estudar os efeitos causados pela religião no mundo moderno.

Frente Parlamentar em Brasília discute a intolerância contra povos de terreiro.

A fiscalização do poder executivo para a aplicação de políticas públicas propostas por comunidades de terreiro foi o principal tema discutido hoje pela manhã, em Brasília, durante café da manhã entre deputados e representantes de comunidades negras. O evento marcou a criação da Frente Parlamentar em defesa das comunidades tradicionais de terreiros, que tem como objetivo não apenas fiscalizar, mas impedir manifestações e ações discriminatórias contra as comunidades negras no Brasil.

A Educação e as religiões de matriz africana: Motivos da Intolerância.

Religiões de matriz africana e a educação escolar: colocação do problema


Este trabalho tem três pressupostos básicos. O primeiro é o de que a educação escolar constitui-se em espaço e tempo de formação de identidades sócio-culturais, de reprodução e enfrentamento de preconceitos e também de formas correlatas de intolerâncias. O segundo pressuposto é o de que em vários segmentos da sociedade brasileira encontram-se atitudes de preconceitos e de intolerância, com relação aos adeptos e às religiões de matriz africana. O terceiro pressuposto é o de que a hegemonia das religiões de matriz judaico-cristã, a discriminação racial e a satanização de entidades espirituais produzem uma invisibilidade das religiões de matriz africana, pelas políticas educacionais, e contribuem com a indiferença de educadores, diante da experiência de adeptos juvenis, que vivem com medo de dizer o nome da religião a que pertencem.


Diante desses três pressupostos, o objetivo principal deste trabalho é contribuir para a superação da atitude de indiferença de educadores/as frente ao preconceito e à intolerância religiosa de que são vítimas crianças e adolescentes em escolas de diversas partes do Brasil. Visando alcançar esse objetivo, através da reflexão e da informação, este trabalho está organizado em duas partes. Na primeira parte, apresenta e analisa a posição de educadores diante do assunto: religiões de matriz africana no Brasil. A base empírica da análise tem sua fonte em pesquisa realizada com educadores/as participantes de encontros formação sobre religião em diferentes estados do Brasil. Na segunda parte, apresenta o significado de alguns fundamentos dessas religiões, cujos conteúdos, em função do desconhecimento existente no seio da população, em virtude do etnocentrismo e eurocentrismo que marcam nosso processo civilizatório, são bases para atitudes intolerantes e preconceituosas. Pelo fato de que sobre a experiência do transe ou possessão recaem, de forma mais acentuada, as atitudes de intolerância e preconceito, há uma maior ênfase na apresentação e análise desse que é um dos principais fundamentos da religião de matriz africana no Brasil. As duas partes deste trabalho foram elaboradas em cinco unidades temáticas, a fim de possibilitar um maior desenvolvimento de aportes empíricos e teóricos sobre o tema em questão.


A problemática desses três pressupostos acima anunciados refere-se à existência de religiões de matriz africana no Brasil. Ou seja: existe em nosso país, pelo menos, mais de uma expressão religiosa, cuja matriz encontra-se no vasto continente africano. Trata-se de um legado dos povos que foram trazidos da África, como escravos durante mais de três séculos de vigência do regime escravista. O conteúdo dessas religiões vem sendo dinamicamente preservado, mesmo diante da perseguição dos senhores de engenho, da hostilidade e vigilância da Igreja Católica, da tentativa de seu embranquecimento por parte dos espíritas kardecistas e, mais recentemente, da intolerância dos neopentecostais . Ainda assim, os terreiros de candomblés das nações Keto, Jeje, Angola e Efã, o Omolocô, o Terecô e algumas vertentes da Umbanda, em níveis diferenciados, constituem uma base significativa das religiões de matriz africana no Brasil.


Em cada um desses segmentos religiosos, existem códigos sócio-culturais que reinstuara linguagens e símbolos da religiosidade africana. Há também trocas comunitárias que partilham saberes, experiências de vida e axé (força vital), nos processos de iniciação, na sacralização de seres dos reinos vegetais, minerais e animais, nas festas e nos rituais fúnebres. Tais experiências constituem-se em formas diferenciadas de estabelecer e compreender a relação entre cultura e natureza. Sendo essa última entendida como algo superior ao mundo criado pelos seres humanos. Em torno das concepções de vida e de cultura das religiões de matriz africana vêm circulando intelectuais e pesquisadores interessados em outras formas de sociabilidade humana.


Embora a forma de sociabilidade das religiões de matriz africana tenha um vasto repertório de códigos sócio-culturais e educativos da população afrodescendente, no Brasil, ainda são poucos os pesquisadores do campo da Educação que realizam investigações sobre a referida temática .


Ao contrário daquilo que ouvi na investigação realizada em encontro de assessorias e fóruns de educadores, envolvidos com a temática religiosa, que afirmam a inexistência de uma bibliografia sobre religiões africanas no Brasil, desde a década de quarenta que vem se consolidando estudos, pesquisas e ensaios publicados sobre a referida temática. Entre os investigadores das religiões de matriz africana no Brasil, encontra-se o francês Roger Bastide , cujo trabalho de pesquisa resgatou a dignidade do conteúdo das religiões afro-brasileiras, que era objeto de pesquisas relacionadas às manifestações de doenças psicossomáticas. Nessa linha, encontram-se as pesquisas desenvolvidas pelo médico legista Nina Rodrigues.


Além de Bastide, outros pesquisadores também contribuíram para afirmar a dignidade das religiões de matriz africana no Brasil . No entanto, as pesquisas sobre as religiões de matriz africana, produzidas nos campos de conhecimento da Antropologia, da Sociologia e da Teologia continuam desconhecidas para a maioria dos/as educadores do nosso país. É isso que posso deduzir diante da afirmação sobre a ausência de pesquisas e publicações.



2- Os/as educadores/as e a intolerância religiosa na escola


Em diferentes encontros com educadores/as do ensino fundamental e médio, das redes públicas e privadas, depois de informar sobre a existência de um vasto material bibliográfico, a respeito dessa temática, produzido nos últimos vinte anos, escutei de alguns/mas educadores/as indagações sobre qual seria a importância de tratar desses conteúdos em sala da aula, onde a maioria dos/as alunos/as é de tradição religiosa judaico-cristã. Diante desse tipo de indagação, sempre evitei uma resposta imediata, devolvia a pergunta para compreender a posição do/a educador/a sobre o assunto. Quase sempre, o/a educador/a começava afirmando que era católico/a e que estava acostumado/a a ouvir horrores sobre terreiros de candomblés e centros de Umbanda, como espaço onde as pessoas eram possuídas por entidades diabólicas, mas nunca tivera muito interesse por esse tipo de manifestação religiosa. Como se pretendesse desculpar-se, diante do meu interesse e conhecimento sobre o assunto, a pessoa concluía sua fala dizendo que não tinha nada contra aos adeptos das religiões de matriz africana no Brasil.


Insistindo no diálogo, eu perguntava se o/a educador/a já havia identificado em sala de aula algum/a aluno/a adepto das religiões de matriz africana, a resposta demorava um pouco, mas era explicitada. Tal identificação resultava das "brincadeiras" de alunos/as que apelidavam algum/a colega como "macumbeiro/a", "preto/a feiticeiro/a", "mandingueiro/a" ou simplesmente diziam que fulano/a era espírita . Mas isso não era levado muito a sério na escola, dizia-me: tratava-se de algo "corriqueiro e normal" nas "brigas" e brincadeiras de crianças e adolescentes.


Considerar os apelidos, a discriminação de gênero, raça e sexo, as "brincadeiras" e brigas na escola como "normais" não é uma posição isolada entre os/as educadores. No campo da Educação, pesquisas realizadas sobre o preconceito e a discriminação racial, revelaram não apenas o silêncio dos rituais pedagógicos diante da discriminação racial do/a aluno/a negro/a , mas também como os apelidos são responsáveis pela baixa auto-estima de alunos/as negros/as .


Ou seja, nesses casos, alunos/as pertencentes às religiões de matriz africana continuam sendo vítimas de preconceito racial e religioso, sem que nenhuma atitude pedagógica seja tomada para impedir tal excrescência. O preconceito, a discriminação e a intolerância são tratados como se não fossem problemas éticos a serem enfrentados pelos rituais pedagógicos da escola. Eles são considerados como "brincadeiras de crianças", "algo normal". Esse tipo de caso corrobora com o enunciado do primeiro pressuposto deste trabalho, sobretudo naquilo que se refere ao fato da reprodução de preconceitos e de formas correlatas de intolerância por parte da escola. Corrobora, também, com o segundo e o terceiro pressupostos, pois permite identificar como educadores fazem parte de segmentos da sociedade brasileira que demonstram atitudes de preconceitos e intolerância diante das religiões de matriz africana. Diante disso, a pergunta sobre a importância de abordar tais conteúdos dentro da escola sugere, não apenas a insignificância do número de adeptos, mas, sobretudo, uma depreciação do conteúdo. O preconceito pode ser deduzido das informações que as pessoas guardam sobre a horrorização do candomblé e dos centros de Umbanda, como experiências religiosas do mal.


O terceiro pressuposto comparece tanto na afirmação de hegemonia da tradição religiosa de matriz judaico-cristã, na diabolização do transe espiritual, quanto na indiferença de educadores/as diante da construção da auto-estima de crianças e jovens negros/as e não negros/as filhos/as de pais adeptos e não adeptos das religiões de matriz africana, que têm medo de dizer o nome da religião a que pertencem, para não sofrerem com as reações de preconceito e de intolerância, resultantes da sua confissão.


Embora a liberdade de consciência e de crença seja um dos direitos e garantias fundamentais do cidadão existente na Constituição Brasileira, bem como o livre exercício dos cultos religiosos , os organismos de implementação de políticas públicas educacionais continuam desconsiderando a existência de religiões de matriz africana no Brasil. Em Minas Gerais, por exemplo, existem Conselho e Comissões Regionais que formam e qualificam professores/as de Ensino Religioso, nos quais não há representantes das religiões de matriz africana. Todos os membros desses Conselhos pertencem à tradição judaico-cristã .


No entanto, existem procedimentos diferenciados com relação à abordagem das religiões de matriz africana, por parte do pode público. A título de exemplo, identifico a prática e a legislação do Estado de São Paulo e do Estado do Pará, respectivamente. Em São Paulo, há um diálogo entre a Secretaria Estadual de Educação e representantes das religiões de matriz africana , com o objetivo de discutir conteúdos e procedimentos relativos a essa religiosidade. No Estado do Pará, a constituição estabelece a possibilidade da disciplina ensino religioso versar sobre as religiões afro-brasileiras . Em verdade, na formulação de políticas educacionais, o que se percebe é o Estado tratando a questão do Ensino Religioso como se não existissem as religiões de matriz africana e como se os seus representantes fossem invisíveis. Com efeito, a presença de um sacerdote do Candomblé Jeje no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, vinculado à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR, sinaliza uma forma diferente do Estado Brasileiro tratar as religiões de matriz africana.


A situação de invisibilidade das religiões de matriz africana, bem como de seus representantes nas políticas educacionais tende a mudar em contextos acadêmicos, onde se refletem sobre as minorias e a exclusão social. Porém, mesmos nesses ambientes, o que se verifica não é bem uma postura respeitosa e de tolerância religiosa.


Quem transita entre os ambientes acadêmicos e o mundo das religiões afro-brasileiras, seja como pesquisador, membro ou sacerdote, costuma, muitas vezes, ser vítima de atitudes intolerantes, jocosas e preconceituosas. Para camuflar o preconceito, o início da conversa entre membros da academia e pessoas vinculadas às religiões de matriz africana tem o tom de uma simples brincadeira, mas a indagação é jocosa. Com enunciados do tipo: "Quando é mesmo que você termina sua pesquisa sobre macumba?" "Quando é que você vai me levar pra conhecer uma macumba?" "Cuidado com ele, pois ele mexe com macumba!" Ou ainda "Acho que estou precisando tomar uns passes em um terreiro!" Com esse tipo de enunciado, o que se vê no meio acadêmico é um preconceito velado diante das pessoas que, de uma maneira ou de outra estão vinculadas às religiões de matriz africana no Brasil.


Esse mesmo tipo de preconceito já não é tão velado quando se trata de alunos/as do ensino fundamental e médio. Isso foi observado em pesquisa realizada junto aos adolescentes da Comunidade dos Arturos, em Contagem-MG . Naquele contexto, em que foi investigada a transmissão dos conteúdos do Congado, uma manifestação afro-católica, organizada em torno da devoção a Nossa Senhora do Rosário, os adolescentes que participavam dessa expressão eram taxados na escola de "macumbeiros". Essa alcunha pejorativa estava desestimulando a participação em dança pública dos grupos de Congo e Moçambique, mesmo nos finais de semana. Eles/as não queriam ser chamados de "macumbeiros" nas discussões que ocorriam no pátio escolar na segunda-feira. Também não aceitavam que o Congado fosse, em hipótese alguma, um tipo de "macumba".


No que se pode chamar de imaginário coletivo da sociedade brasileira, "macumba" é igual magia negra, feitiçaria, trabalhos de encruzilhadas, etc. Nos programas de televisão das igrejas neopentecostais os pastores não cansam de veicular esse tipo de mensagem. Aqui vale ressaltar que até a realização do Concílio Vaticano II (1962-1965), a Igreja Católica também tinha orientações explícitas contra ao que chamava de baixo espiritismo . Havia, inclusive, uma ameaça de ex-comunhão para quem participasse da "macumba", considerada, na década de cinqüenta, pelo Cardeal Motta, "um dos maiores atentados a fé, contra a moral, contra nossos foros de educação, contra a higiene e contra a segurança" . Uma verdadeira cruzada foi realizada para combater a expansão da Umbanda entre o segmento das classes médias. A Igreja Católica só mudou de posição em relação à "macumba" depois das deliberações do Concílio Vaticano II, em específico, com o Documento Ad Gentes, que tratou da questão missionária.


Sem precisar remontar às mazelas da escravidão, encontramos na recente ação pastoral e evangelizadora de igrejas cristãs uma base de sustentação da intolerância religiosa e do preconceito contra as religiões de matriz africana no Brasil. Embora a Igreja Católica tenha produzido documentos sinalizando uma mudança de atitude, não se pode esperar uma transformação automática, em razão daquilo que na historiografia passou a se chamar de uma longa duração da mentalidade. Além do mais, a maioria dos católicos ainda desconhece as orientações conciliares. Se por um lado a Igreja Católica no Brasil, oficialmente, através da CNBB, vem mudando de posicionamento, publicando, em 1976, novas orientações pastorais para tratamento respeitoso da "Macumba e dos Cultos Afro-Brasileiros" ; por outro lado, a partir da década de oitenta, a expansão das igrejas neopentecostais vem coincidindo com a deflagração de uma cruzada cristã contra pessoas e templos das religiões afro-brasileira, inclusive com invasão organizada a templos e cerimônias religiosas, como ocorreu recentemente em Salvador e também em Belo Horizonte.



3- A intolerância religiosa e alguns fundamentos das religiões de matriz africana


Diante da problemática que envolve a intolerância religiosa e o preconceito com relação aos adeptos e aos templos das religiões da matriz africana, temos de nos perguntar pelos motivos que atualmente resultam nessas atitudes. Para tentar compreender os motivos da intolerância e do preconceito, duas indagações podem ser feitas, uma primeira relacionada aos fundamentos e à organização, e a uma outra sobre a aceitação e à legitimidade. A primeira pergunta pode ser formulada nesses termos: O que há de tão absurdo na organização e nos fundamentos das religiões da matriz africana, que poderia explicar a intolerância e os preconceitos de que são vítimas as pessoas adeptas dessas religiões? A outra pergunta é: Por que será que no mercado concorrecional das religiões, para usar uma expressão de Pierre Bourdieu, as religiões de matriz africana enfrentam grandes problemas de aceitação e de legitimidades no Brasil?


Para responder essas duas indagações tenho de explicitar mais uma vez o que estou entendendo por religiões de matriz africana no Brasil. Mesmo contrariando alguns segmentos religiosos que não reconhecem a Umbanda como uma religião de matriz africana, em função de um certo processo em embranquecimento de práticas afro-brasileiras, ainda assim, entendo como religiões de matriz africana no Brasil todas as expressões religiosas em que existem algum tipo de transe possessão mediúnica (de orixá, inquice, vodum ou ancestral) e de rituais de iniciação, públicos ou privados, envolvendo a comunidade com cânticos e danças, ao som de instrumentos de percussão, comandadas por um/a ou mais de um sacerdote ou sacerdotisa, amparado/a por um tipo de oráculo africano.


Nessa definição que terminei de apresentar, suprimi toda e qualquer dimensão transcendental da religião, em proveito de uma dimensão relacional da pessoa com seu orixá, que é um ancestral ou força da natureza divinizada, através de rituais privados ou comunitários, ao som de instrumentos de percussão, tendo o sacerdócio e o oráculo africano como mediadores dessa relação. A meu ver, cinco elementos são fundamentais nas religiões de matriz africana no Brasil. 1. A possessão mediúnica; 2. os rituais públicos e privados; 3. a comunidade; 4. o exercício do sacerdócio, 5. o oráculo africano.


Sobre a dimensão a existência de um Deus transcendente, como bem demonstrou em sua tese de doutorado, a alemã Franzisca Rehbein, a idéia de um Deus criador, que reside no orun (céu) e tem a força e o poder por si mesmo, existe nas religiões africanas, mas não há um culto organizado para o Ser Supremo. A Olorun, Olodumare, senhor do destino eterno, são dirigidas orações curtas de afirmação da sua grandeza, como por exemplo : a oração que afirma haver Deus maior do que Olorun.


As divindades que são invocadas e com quem o fiel estabelece uma relação no cotidiano são intermediárias entre o Ser Supremo, no orun (céu) e o indivíduo aqui no aiye (terra). Conforme a denominação da religião de matriz africana no Brasil, chamam-se orixá, inquice, vodum. Trata-se de forças que se fazem presentes e se relacionam na vida do fiel, não apenas durante o ritual, através da possessão ou do transe, mas também, como afirma Roger Bastide, "de modo certamente menos espetacular embora mais contínuo e mais eficaz, por sua pedra, pelos objetos sagrados do peji (altar) pessoal (...).


Embora sejam a possessão e o transe as formas mais espetaculares das divindades africanas se relacionarem com o fiel, através de manifestação pública ou privada, essa não é a única maneira do fiel se relacionar com sua divindade. Há, desde o momento da iniciação, uma série de códigos simbólicos objetos rituais, através dos quais as divindades se fazem presentes na vida do fiel. São os otás (pedras sacralizadas), as ferramentas, símbolos das entidades que são a manifestação do sagrado entre o "povo do santo".


Sobre o fenômeno do transe ritual ou da possessão recai parte da explicação da intolerância e do preconceito, pois tem sido estudado a partir de pontos de vistas que não consideram a sua dimensão propriamente religiosa. Conforme Márcio Goldman, no Brasil o fenômeno da possessão ou transe tem sido estudado através de dois modelos: um modelo de análise construído a partir do fator biológico, patológico de caráter histérico e neurótico; e o outro modelo fundando na determinação social, como mecanismo de adaptação, "instrumento de protesto social" e como "meio de reforço da ordem existente". Apesar de não negar que a possessão tenha aspectos biopsicológicos e sociológicos, Goldman afirma que esses dois modelos (biologizante e sociologizante) incidem no reducionismo, que é, um erro metodológico e epistemilógico . Trabalhando com a hipótese de que a possessão é uma realidade cujo completo entendimento depende da articulação entre o transe, o culto e a sociedade, Goldman sustenta que a "possessão é um fenômeno complexo, situado no cruzamento de um duplo eixo, um de origem nitidamente sociológica, o outro ligado a níveis mais individuais. " Esse duplo eixo de análise da possessão é abordado em Goldman, através de uma teoria da construção da pessoa e de uma teoria ritual.


O que nos interessa, aqui, mais especificamente, é uma compreensão de como o fenômeno da possessão ou transe está relacionado com as religiões de matriz africana no Brasil. A resposta do Márcio Goldman remonta aos aspectos pessoais e rituais. Sendo assim, ao conceber o fenômeno da possessão mediúnica como um dos fundamentos da religião de matriz africana, posso estabelecer um vínculo direto com os rituais de iniciação e de passagem que ocorrem no interior das comunidades religiosas, que também são tomados como fundamentos da religião.


A partir do estudo da possessão realizado por Márcio Goldman, posso sustentar que por meio de rituais a pessoa fiel às religiões de matriz africana é possuída por uma qualidade específica de um orixá, tida como uma "entidade geral", que pode ser um inquice, vodum ou ancestral africano. Isso porque, há nas religiões de matriz africana no Brasil, o orixá Xangô, o inquice Nzaze-Loango, e o vodum Badé, que é, cada um, na sua tradição, ancestral geral ou força da natureza. Há também o Xangô de Luísa, Nzaze-Loango de Cláudia e o Badé de Filomena. Portanto, o que se apossa como tipo de transe nas pessoas que são dos terreiros de candomblé de Keto ou Efã, Angola, Jejes, do Omolocô e mesmo nas casas de Umbanda é uma "ínfima fração" da entidade geral, "caso contrário, nem o filho-de-santo que o recebe, nem o próprio mundo poderiam suportar a infinita potência que sobre eles se abateria, sendo imediatamente aniquilado" .


Há uma relação individualizada entre o fiel e o orixá yorubá, entidade religiosa que pode ser compreendida como força da natureza ou ancestral divinizado, observada inclusive em África, na Nigéria, onde Karin Barber afirma que "cada fiel pode sentir que tem 'sua própria' Oya (Iansã) ou Sàngó ou qualquer outro òrìsà. Isso acontece porque cada òrìsà é dividido em versões incontáveis, cada uma delas com seu próprio nome subsidiário, orikí (poema religioso), personalidade e tabus."


Ao compreender a possessão como algo que se dá apenas por uma "ínfima fração" da entidade geral, seja ela orixá, inquice ou vodum, Márcio Goldman não somente nos ajudou a pensar a religião de matriz africana, no estrito sentido do termo religião, como um sistema que desenha um outro mundo e realiza esforços para toca-lo; mas também, contribuiu para nos ajudar a pensar o significado das primeiras possessões de entidade como "transe bruto". Quando durante um ritual das religiões de matriz africana alguém cai no chão estatelado, é possível crer que este alguém tenha sido possuído por muito mais do que uma "ínfima fração" da entidade religiosa que lhe apossou. Coincidência ou não, conheci casos em que a queda machucou bastante a pessoa, que, por sua vez, não queria se submeter ao processo de iniciação.


Nesses casos, na linguagem do "povo de santo" a pessoa "bolou" com uma entidade religiosa. Ela havia sido escolhida para ser consagrada ao orixá, inquice ou vodum. O processo de iniciação ritual inevitavelmente deveria acontecer, pois é isso significa o ato de bolar no chão. Dependendo dos níveis de sentidos conscientes e inconscientes produzidos pelo ato de bolar na trajetória pessoal, uma recusa radical diante do apelo à iniciação poderia significar vários prejuízos na vida da pessoa. Podendo, inclusive levar a sérios problemas de saúde física e mental, como casos de loucura.


No meu entender, uma forte manifestação da entidade religiosa na vida do indivíduo, quase sempre ocorre no contexto de um ritual religioso, em pessoas que têm algum tipo de vinculo negativo ou positivo com comunidades religiosas de matriz africana. Algumas vezes, o "ato de bolar" decorre seja de um apelo emocional diante da beleza do espetáculo religioso, seja por uma atenção especial as orientações e revelações feitas pelas entidades do terreiro, seja ainda pelas revelações apresentadas na consulta ao oráculo da religião. De uma forma ou de outra, a pessoa que costuma cair estatelada no chão já sente algum tipo de apelo interior da religião. Outros motivos de ordem sociológica e biopsicológicas poderiam ainda ser acrescentados a esse tipo de manifestação, mas, por ora, esses são os escolhidos para nos introduzir nos rituais de iniciação nas religiões de matriz africana.



4- Outras formas de adesão à religião de matriz africana
A tradição religiosa judaico-cristã, antes dos neopentecostais, primava por um tipo de religiosidade mais contemplativa, sem grandes manifestações aparentes. Na Igreja Católica, por exemplo, o transe místico sempre fora reprimido. Um caso clássico de repressão ao transe, refere-se à história de Santa Teresa de Ávila, que tinha grandes arroubos espirituais. O transe ou possessão quase sempre foi tomado pela tradição judaico-cristã como alucinação ou possessão diabólica. Em razão disso, desenvolveu-se um tipo de religiosidade, em que as pessoas têm dificuldades em aceitar o transe religioso como fundamento de uma religião.


No entanto, vale ressaltar que há outras maneiras menos dramáticas de iniciação de uma pessoa nas religiões de matriz africana. Por decisão pessoal, alguém pode manifestar o desejo de participar e ser iniciada nos rituais religiosos, mesmo não sendo possuído por uma entidade religiosa. Além disso, entidades de pessoas que ocupam cargos sacerdotais podem convidar alguém da assistência, de certa maneira alguém amigo/a da casa, para assumir algum tipo de papel no ritual religioso. O Jogo de Búzios ou a Peneira de Ifá também pode revelar a vontade dos orixás, inquices ou voduns em ter determinada pessoa ocupando funções em uma comunidade religiosa. Nesses casos, existem diferentes processos de iniciação.


Em todos os casos, a iniciação se dará através de rituais que vão desde a lavagem das contas, passando pelo Bori (dar comida à cabeça) e pelos banhos de ervas, seguindo com a sacralizações de animais de duas e quatro patas, com reclusão e aprendizagem dos códigos litúrgicos e procedimentos comunitários. A maior parte dos rituais de iniciação é de ordem privada, são realizados na presença de alguns membros da comunidade que já foram submetidos aos mesmos e têm firmeza e maturidade religiosa para ajudar nos atos. Nas religiões de matriz africana, apenas uma pequena parte dos rituais de iniciação é aberta ao público que não tem um vínculo ritualístico com a comunidade. Trata-se da festa do nome do santo e da entronização de Ogãs e equedes, kissicaramgomo e makotas, cargos sacerdotais importantes na hierarquia dos terreiros. Até o momento de apresentação pública, a pessoa iniciada terá passado por um período que vai de sete a trinta dias de reclusão ritual. Nesse tempo, terá aprendido cantos, rezas, danças e narrativas sobre as vivências religiosas dos/as mais velhos/as . Todo esse sacrifício tem como principal objetivo um tipo de vínculo e o aprimoramento da relação pessoal com uma entidade religiosa.


Fora dos rituais de iniciação, as religiões de matriz africana têm outros rituais em que se repetem acontecimentos narrados em mitos, como os rituais das Águas de Oxalá, realiza-se também um banquete para a família de um Orixá, como o Olubajé de Obaluaiye. Basicamente, em todos os rituais públicos, há comida e bebida farta para ser compartilhada com a assistência. Em quase toda a Bahia, as comidas oferecidas são iguarias da culinária afro-brasileira, como acarajé, amalá, caruru, vatapá, xinxim de galinha, acaçá, arroz de haussá, etc.


Tudo isso ocorre em clima de festa comunitária e de confraternização que se inicia desde o anúncio do ritual, através da colaboração financeira dos membros que podem contribuir, e vai até a preparação comunitária dos alimentos que serão servidos ao altar das entidades religiosas e ao povo que vem participar da festa.


A festa não é apenas uma das características principais das religiões de matriz africana, mas também um dos seus fundamentos. Ao som da música, ao retumbar dos tambores, no ritmo da percussão, as pessoas cantam e dançam para invocar a proteção e reverenciar as entidades religiosas. É esse um dos momentos em que a relação entre o indivíduo e sua entidade torna-se mais forte, produzindo, assim, benefícios na ordem dos enfrentamentos cotidianos, que são múltiplos e diversificados. Esses enfrentamentos envolvem desde os conflitos de classes, raça e gênero, passando pela afirmação de identidade, desembocam nas atitudes de intolerância e preconceitos, e vão até a luta diária pela sobrevivência. No contexto dos rituais, a festa simboliza a culminância do principal objetivo que se pretende alcançar nas religiões de matriz africana. Trata-se de uma vida boa, com saúde, prosperidade e felicidade.



5- Considerações finais


O conhecimento dos fundamentos religiosos como códigos sócio-culturais e parte das referências identitárias dos afrodescendentes, possibilita a compreensão de que não há nem um absurdo nas religiões de matriz africana no Brasil. Em verdade, o que existe mesmo na sociedade brasileira, e de sobra, é eurocentrismo e etnocentrismo. É aí que se produz um entendimento de que a religião certa é aquela que os europeus nos trouxeram, cuja matriz é judaico-cristã. As outras religiões, não são propriamente religiões, mas seitas, expressões de religiosidade, crendices, magias e superstições. Para esse tipo de entendimento, a única religião que tem uma mensagem boa para vida é o cristianismo, porque promete a vida eterna.



No entanto, para as religiões de matriz africana, de certa maneira, a eternidade da vida começa aqui, vivendo feliz, junto das pessoas de quem se gosta. Não se contesta a plenitude de uma vida após a morte, mas também não há uma preocupação em alcança-la. O que o adepto consciente das religiões de matriz africana espera depois da sua morte é, por um lado, ser digno dos ritos fúnebres, merecidos em virtude do seu processo de iniciação, por outro lado, ser celebrado pela sua firmeza e seu compromisso com a tradição e com os fundamentos presentes nessa forma de sociabilidade.


Compreender os fundamentos das religiões de matriz africana como códigos sócio-culturais e educativos, referentes a uma outra forma de sociabilidade, pode ser um dos caminhos para afastar atitudes como a indiferença, a intolerância e o preconceito na educação escolar. Essa perspectiva de compreensão contribui para que o/a estudante negro/a, e, também não-negro/a, adepto/a das religiões de matriz africana, possa ver sua religião ser abordada na escola como uma referência identitária positiva. Retomo, assim, um dos aspectos do primeiro pressuposto deste trabalho: o de que a escola é um espaço e tempo de afirmação de identidade. Certamente, isso exige um esforço muito grande de educadores/as deste nosso País, com relação à mudança de mentalidade e práticas educativas.

Para finalizar, ressalto que as questões relacionadas à aceitação e legitimidade das religiões de matriz africana podem também ser pensadas pelo não reconhecimento de que Deus, o Ser Supremo, O Eterno, tem outras maneiras de se fazer presente no meio da humanidade. Os orixás, os inquices, os vondus e os ancestrais constituem-se outras palavras de Deus na história da humanidade.



fonte:http://dx.doi.org/10.1590/S0100-85872008000100011
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VERGER, Pierre Faumbi. Orixás: deuses yorubas na áfrica e no Novo Mundo. 2a edição. Salvador: Currupio, 1985.

Mais um conto...


Ananse e o baú de histórias - um conto da África...


Houve um tempo em que na Terra não havia histórias para se contar, pois todas pertenciam a Nyame, o Deus do Céu. Kwaku Ananse, o Homem Aranha, queria comprar as histórias de Nyame, o Deus do Céu, para contar ao povo de sua aldeia, então por isso um dia, ele teceu uma imensa teia de prata que ia do céu até o chão e por ela subiu.

Quando Nyame ouviu Ananse dizer que queria comprar as suas histórias, ele riu muito e falou: - O preço de minhas histórias, Ananse, é que você me traga Osebo, o leopardo de dentes terríveis; Mmboro os marimbondos que picam como fogo e Moatia a fada que nenhum homem viu.

Ele pensava que com isso faria Ananse desistir da idéia, mas ele apenas respondeu:

- Pagarei seu preço com prazer!

Novamente o Deus do Céu riu muito e falou:

- Ora Ananse, como pode um velho fraco como você, tão pequeno, tão pequeno, pagar o meu preço?

Mas Ananse nada respondeu, apenas desceu por sua teia de prata que ia do Céu até o chão para pegar as coisas que Deus exigia.

Ele correu por toda a selva até que encontrou Osebo, leopardo de dentes terríveis.

- Aha, Ananse! Você chegou na hora certa para ser o meu almoço.

- O que tiver de ser será - disse Ananse - Mas primeiro vamos brincar do jogo de amarrar?

O leopardo que adorava jogos, logo se interessou:

- Como se joga este jogo?

- Com cipós, eu amarro você pelo pé com o cipó, depois desamarro, aí, é a sua vez de me amarrar. Ganha quem amarrar e desamarrar mais depressa. - disse Ananse.

- Muito bem, rosnou o leopardo que planejava devorar o Homem Aranha assim que o amarrasse.

Ananse, então, amarrou Osebo pelo pé, pelo pé e pelo pé, e quando ele estava bem preso, pendurou-o amarrado a uma árvore dizendo:

- Agora Osebo, você está pronto para encontrar Nyame o Deus do Céu.

Aí, Ananse cortou uma folha de bananeira, encheu uma cabaça com água e atravessou o mato alto até a casa de Mmboro. Lá chegando, colocou a folha de bananeira sobre sua cabeça, derramou um pouco de água sobre si, e o resto sobre a casa de Mmboro dizendo:

- Está chovendo, chovendo, chovendo, vocês não gostariam de entrar na minha cabaça para que a chuva não estrague suas asas?

- Muito obrigado, Muito obrigado!, zumbiram os marimbondos entrando para dentro da cabaça que Ananse tampou rapidamente.

O Homem Aranha, então, pendurou a cabaça na árvore junto a Osebo dizendo:

- Agora Mmboro, você está pronto para encontrar Nyame, o Deus do Céu.

Depois, ele esculpiu uma boneca de madeira, cobriu-a de cola da cabeça aos pés, e colocou-a aos pés de um flamboyant onde as fadas costumam dançar. À sua frente, colocou uma tigela de inhame assado, amarrou a ponta de um cipó em sua cabeça, e foi se esconder atrás de um arbusto próximo, segurando a outra ponta do cipó e esperou. Minutos depois chegou Moatia, a fada que nenhum homem viu. Ela veio dançando, dançando, dançando, como só as fadas africanas sabem dançar, até aos pés do flamboyant. Lá, ela avistou a boneca e a tigela de inhame.

- Bebê de borracha. Estou com tanta fome, poderia dar-me um pouco de seu inhame?

Ananse puxou a sua ponta do cipó para que parecesse que a boneca dizia sim com a cabeça, a fada, então, comeu tudo, depois agradeceu:

- Muito obrigada bebê de borracha.

Mas a boneca nada respondeu, a fada, então, ameaçou:

- Bebê de borracha, se você não me responde, eu vou te bater.

E como a boneca continuasse parada, deu-lhe um tapa ficando com sua mão presa na sua bochecha cheia de cola. Mais irritada ainda, a fada ameaçou de novo:

- Bebê de borracha, se você não me responde, eu vou lhe dar outro tapa.

E como a boneca continuasse parada, deu-lhe um tapa ficando agora, com as duas mãos presas. Mais irritada ainda, a fada tentou livrar-se com os pés, mas eles também ficaram presos. Ananse então, saiu de trás do arbusto, carregou a fada até a árvore onde estavam Osebo e Mmboro dizendo:

- Agora Mmoatia, você está pronta para encontrar Nyame o Deus do Céu.

Depois, ele teceu uma imensa teia de prata em volta do leopardo, dos marimbondos e da fada, e uma outra que ia do chão até o Céu e por ela subiu carregando seus tesouros até os pés do trono de Nyame.

- Ave Nyame! - disse ele - Aqui está o preço que você pede por suas histórias: Osebo, o leopardo de dentes terríveis, Mmboro, os marimbondos que picam como fogo e Moatia a fada que nenhum homem viu.

Nyame ficou maravilhado, e chamou todos de sua corte dizendo: - O pequeno Ananse, trouxe o preço que peço por minhas histórias; de hoje em diante, e para sempre, elas pertencem a Ananse e serão chamadas de histórias do Homem Aranha! Cantem em seu louvor!

Ananse, maravilhado, desceu por sua teia de prata levando consigo o baú das histórias até o povo de sua aldeia, e quando ele abriu o baú, as histórias se espalharam pelos quatro cantos do mundo, vindo chegar até aqui.

Até a próxima história...

fonte:mundoazulth.blogspot.com

Outro Conto africano...




Kongamato



Ir para artigo inteiroA primeira menção do nome Kongamato, foi no ano de 1923, quando viajante pelo nome de Frank H. Melland estava trabalhando para uma vez em Zâmbia, recolhendo relatos de nativos sober uma misteriosa ave, sem pelos, que atacava os nativos naquela região. Eles a chamavam de “Kongamato” (siginificando “dominador de barcos”).


kongamato


Essa palavra é parte de um encantamento usado pelos Koandes para se proteger contra enchentes, que dizem ser provocadas por essa criatura. Eles usam o amuleto chamado “muchi wa Kongamato” para os os proteger quando atravessam certos rios habitados pela criatura. Dr. J.L.B. Smith, que ficou famoso por sua participação no descobrimento do celacanto, escreveu sobre lendas de dragões alados que habitam no Monte Kilimanjaro. Sua idéia é de que espécies extintas podem ser descoberta nos lagos, pântanos, rios e selvas da África do Sul. Marjorie Courtenay-Latimer, que descobriu o fóssil vivo celacanto compilou diversas estórias de répteis da Namímbia. De acordo com esse rumores, esses dragões voadores deixavam um cheiro de grama queimada quando eles pousavam.


Em 1920, o chefe da tribo Kanyinga morador da área de Jiwundu Swamp próximo da fronteira do Zaire identificou uma figura do pterodátilo como um Kongamato… Em 1958, o jornalista científico Maurice Burton escreveu para uma revista que vários relatos na África diziam de uma criatura parecida como um pterodátilo que vivia nos pântanos de Bangweulu. Ela vive nos pântanos de Jiundu até o oeste de Zâmbia, Congo e Angola e há muitos relatos de ataques contra os nativos. Criaturas similares são encontradas no Camarão, onde são chamadas de Olitiau, e em Gana são denominadas de Sasabonsam. Alguns dizem que ele tem a habilidade de brilhar à noite. Suas cores variam, mas é dito que é principalmente de cor vermelha ou negra, tanto que muitos cientistas dizem que se trata na verdade é de um morcego ou uma cegonha, mas que os criptologistas teimam em dizer que é um pterodátilo.


Também é descrito como um dragão voador de mais ou menos 1,22 m, em cores que variam de verde a azulado, mas em linhas gerais é sempre descrito como de corpo alongado, com pés pequenos, e grandes asas semelhantes a de um morcego. Algumas tribos os adoram como deuses. Imaginação ou não, houve até um estudante do Kenya que ligou para dizer que esses reptéis voadores não estavam extintos, descrevendo-os perfeitamente e dizendo que ele eram considerados pragas, semelhantes aos urubus e que se não se enterrasse profundamente os cadáveres ele os desenterravam para comer os restos de nativos e animais mortos. Eles não acreditavam que seja uma coisa sobrenatural como um demônio (molumbe), as algo muito real como um leão ou um búfalo.


Lendas de pterodátilos que tenham sobrevivido não é incomum, tanto é assim que dizem que um garoto de nome Oliver Thomas foi raptado por um deles… Isso aconteceu em 1909, ele foi até um poço pegar água quando da casa, todos ouviram seus gritos desesperados. Quando correram eles não vira nada lá fora, mas conseguiram ouvir seus gritos cada vez mais distantes… Depois se verificou que as pegadas iam até um determinado ponto e de lá sumiam! E mais adiante encontraram o balde, como se ele tivesse soltado de uma determinada altura… Para esse sumiço, há até quem culpe o Wendigo, lendário monstro faminto das lendas dos índios algonquinos.


Há inclusive em um dos sites, um pterodátilo abatido durante a guerra civil. Muito interessante e logo se vê que é uma montagem da época. Para finalizar há muitos relatos de criaturas aladas estranhas que sobrevoam também a América do Norte, descritas como grande pássaros, abutres, demônios, como o Homem Mariposa, que foi visto várias vezes e em 1966, provocou uma histeria coletiva no oeste da Virgínia e o caso foi mote do filme Mothman Propehecies, com Richard Gere… Mas isto é outra estória….


http://pt.wikipedia.org/wiki/Algonquinos http://pt.wikipedia.org/wiki/Wendigo

Preconceitos e dores diferentes?





Uma versão de um ótimo quadro da atriz e comediante Wanda Sykes foi recentemente disponibilizado com legenda na Internet, dando espaço para uma discussão em alguns sites brasileiros sobre as particularidades do preconceito contra gays (a homofobia) e sua comparação com o preconceito contra negros (o racismo). Aproveitando o questionamento no Sindrome de Estocolmo, fiz os comentários a seguir.



Antes de tudo, é difícil comparar sofrimentos.


A persistente desigualdade social entre negros e brancos é cruel. Não há como aceitar que se minimize o sofrimento e prejuízo que o racismo ainda causa hoje, nem é essa a pretensão deste texto. O que podemos arriscar é tentar avaliar as modalidades e os aspectos em que as pessoas são atingidas por preconceitos diferentes. Nestes termos, acho que é possível observar que gays sofrem atualmente mais com as modalidades de agressão direta e de certos tipos de discriminação naturalizada e justificada socialmente.


Primeiro, o espaço de convivência social, como trabalho e espaços públicos. Geralmente, negros são poupados de verbalizações racistas nem que seja por educação e hipocrisia, algo que não costuma acontecer entre homossexuais, cuja maioria está invisível (embora a visibilidade não seja garantia de deixar de ouvir esses comentários). Quando alguém faz comentários racistas no trabalho ou outro espaço público costuma freqüentemente encontrar censura de pelo menos um ou de todos colegas, enquanto comentários homofóbicos são moeda corrente na maioria dos ambientes sociais, usados tranqüilamente para “quebrar o gelo” e reforçar a mensagem de que homossexuais não são bem-vindos ou inferiores. A interação em espaços públicos não se limita a verbalizações que minam a auto-estima e a disposição dos homossexuais que podem ser comparadas ao bullying, mas também práticas discriminatórias são extremamente comuns. É verdade que práticas discriminatórias ocorrem com negros também, mas há uma diferença importante em relação ao racismo: as pessoas ainda acham socialmente aceitável apresentar a sexualidade como um motivo justo para discriminar, enquanto o racismo precisa de desculpas indiretas e racionalizações para agir. É comum encontrar pessoas que acham natural não querer dividir um quarto em viagem de negócios com alguém homossexual, enquanto que uma justificativa semelhante usando a raça seria certamente caso de demissão. Até mesmo o atendimento em redes de saúde também é uma situação onde existem relatos de profissionais que evitam e até mesmo se negam a atender homossexuais, enquanto os outros colegas de profissão discutem se essa é ou não uma atitude aceitável.


Como o vídeo de Wanda Sykes mostra de forma humorada, negros geralmente podem contar com a família (igualmente negra ou inter-racial) para lhes fornecer amor, uma rede de apoio contra o preconceito e ajudar a construir uma auto-imagem positiva. Gays começam sua construção identitária solitários (em uma familia heterossexual, sem modelos de referência próximos e que ensina que ser gay é ruim e vergonhoso). Muitas vezes os jovens gays têm todo o apoio familiar retirado quando o assunto é trazido a tona: recebem menos investimento educacional depois da “decepção” dos pais ou mesmo acabam sendo expulsos (ou levados a sair) de casa. De modo geral, negros tem a possibilidade de construir sua identidade dentro de uma família afetuosa enquanto gays só conseguem fazê-lo depois de abandonar ou afastar-se de sua comunidade original opressiva, muitas vezes sem levar nada consigo e sem saber onde encontrar e como inserir-se numa nem sempre disponível ”comunidade gay/simpatizante” que o apoie e permita sociabilizar-se. Não por acaso, temos um alto índice de suicídio entre adolescentes e jovens gays. Existem também alguns trabalhos sobre gays adolescentes moradores de ruas nos EUA (muitos por terem sido expulsos ou levados a sair de casa) infelizmente não conheço paralelo sobre o assunto no Brasil, mas podemos intuir que uma situação semelhante acontece por aqui.


E por fim, como a o homossexualidade se apresenta na população geral e não por classe social ou etnia, ser gay e negro/pardo é extremamente comum. Pode-se admitir perfeitamente que a maioria dos gays é pobre e portanto duplamente invisível para sociedade. A vida da maioria gay/negra/lésbica/pobre/travesti é algo muito distante da imagem fashion e sofisticada dos gays na mídia (mesmo quando negativamente representados). O que talvez mostre o quanto é injusto comparar preconceitos quando suas vítimas localizam-se entre tantas intersecções.


fonte:nucleounisex.org/...

domingo, 2 de outubro de 2011

4º Congresso Nacional da UNEGRO: Negras e Negros Compartilhando o Poder





4º Congresso Nacional da UNEGRO: Negras e Negros Compartilhando o Poder





NORMAS GERAIS PARA PARTICIPAÇÃO NO 4º CONGRESSO NACIONAL DA




UNIÃO DE NEGROS PELA IGUALDADE – UNEGRO / BRASIL





1.O 4º Congresso Nacional da União de Negros Pela Igualdade - UNEGRO se realizará nos dias 10, 11, 12 e 13 de novembro de 2011, no Centro de Convenção Ulisses Guimarães em Brasília/DF.







2.O tema do 4º Congresso Nacional da UNEGRO será: “Por um Novo Projeto de Desenvolvimento Nacional: Negras e Negros compartilhando o Poder”.






3. Terão direito a participação todos filiados e filiados da UNEGRO que cumprir os critérios estabelecidos e aprovados pelo Conselho Deliberativo da entidade.





4. Todos estados deverão fazer plenárias estaduais para eleição de delegados e delegadas, a partir de 01 de agosto a 16 de outubro de 2011. As plenárias regionais e municipais contarão para efeito de mobilização.





5. As plenárias deverão obrigatoriamente discutir o Documento do 4º Congresso Nacional da UNEGRO elaborado pela Executiva Nacional e aprovado pelo Conselho Deliberativo da entidade.





6. As emendas no Documento do 4º Congresso Nacional da UNEGRO serão apresentadas somente nas plenárias estaduais. A Coordenação Executiva sistematizará e encaminhará ao Congresso Nacional. As emendas não encaminhadas até dia 21 de outubro de 2011 estarão automaticamente prejudicadas.





7. As datas das plenárias estaduais, regionais e municipais deverão ser remetidas antecipadamente para Coordenação Executiva através do e-mail: unegrobrasil@uol.com.br. Sempre que possível haverá um memb ro do Conselho Deliberativo presente nas plenárias estaduais.





8. O relatório das plenárias, relação dos filiados que participaram e relação da delegação deverão ser encaminhadas a Coordenação Executiva até o dia 21 de outubro de 2011, no e-mail: unegrobrasil@uol.com.br. Será o brigatório o recadastramento de todos filiados, pois o processo de mobilização congressual será casado com a meta de 10 mil filiações em todo país.





9. Para cada 2 (dois) presentes nas plenárias estaduais, será eleito 1 (hum) delegado ou delegada para participar do 4º Congresso Nacional da UNEGRO em Brasília.





10. As delegações deverão observar critérios geracionais e de gênero.





11. A taxa de inscrição para participação no 4º Congresso Nacional da UNEGRO será de R$ 30,00 (trinta reais) por delegado e delegada, recolhido pelos responsáveis de bancadas estaduais e depositado impreterivelmente até dia 05 de novembro de 2011, na conta: Caixa Econÿmica Federal - Ag. 1230 – Tipo 03 - Conta Corrente 983- 9.





12. O 4º Congresso Nacional da UNEGRO comportará 1000 delegados e delegadas, divididos da seguinte forma:


13. O transporte fica por conta da Coordenação de cada Estado.







14. Terão direito ao número total dos delegados e delegadas os estados que cumprir rigorosamente os itens 08, 09, 10 , 11 e 13.


15. Os casos omissos serão avaliados pelo Conselho Deliberativo cessante.



OBS:O Rio de Janeiro tem direito á 80 delegados.



Unegrino, entre em contato com o Nucleo da UNEGRO de seu municipio.




Fonte: www.unegro.org.br

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Conhecendo as Crianças...Ere





São a alegria que contagia a Umbanda. Descem nos terreiros simbolizando a pureza, a inocência e a singeleza. Seus trabalhos se resumem em brincadeiras e divertimentos. Podemos pedir-lhes ajuda para os nossos filhos, resolução de problemas, fazer confidências, mexericos, mas nunca para o mal, pois eles não atendem pedidos dessa natureza.
São espíritos que já estiveram encarnados na terra e que optaram por continuar sua evolução espiritual através da prática de caridade, incorporando em médiuns nos terreiros de Umbanda. Em sua maioria, foram espíritos que desencarnaram com pouca idade (terrena), por isso trazem características de sua última encarnação, como o trejeito e a fala de criança, o gosto por brinquedos e doces.
Assim como todos os servidores dos Orixás, elas também tem funções bem específicas, e a principal delas é a de mensageiro dos Orixás, sendo extremamente respeitados pelos caboclos e pelos pretos-velhos.
É uma falange de espíritos que assumem em forma e modos, a mentalidade infantil. Como no plano material, também no plano espiritual, a criança não se governa, tem sempre que ser tutelada. É a única linha em que a comida de santo (Amalás), leva tempero especial (açúcar). É conhecido nos terreiros de Nação e Candomblé, como (ÊRES ou IBEJI). Na representação nos pontos riscados, Ibeji é livre para utilizar o que melhor lhe aprouver. A linha de Ibeji é tão independente quanto à linha de Exu.
Ibeijada, Erês, Dois-Dois, Crianças, Ibejis, são esses vários nomes para essas entidades que se apresentam de maneira infantil.




No Candomblé, o Erê, tem uma função muito importante. Como o Orixá não fala, é ele quem vem para dar os recados do pai. É normalmente muito irrequieto, barulhento, às vezes brigão, não gosta de tomar banho, e nas festas se não for contido pode literalmente botar fogo no oceano. Ainda no Candomblé, o Erê tem muitas outras funções, o Yaô, virado no Erê, pode fazer tudo o que o Orixá não pode, até mesmo as funções fisiológicas do médium, ele pode fazer. O Erê muitas vezes em casos de necessidade extrema ou perigo para o médium, pode manifestar-se e trazê-lo para a roça, pegando até mesmo uma condução se for o caso.
Na Umbanda mais uma vez, vemos a diferença entre as entidades/divindades. A Criança na Umbanda é apenas uma manifestação de um espírito cujo desencarne normalmente se deu em idades infanto-juvenis. São tão barulhentos como os Erês, embora alguns são bem mais tranqüilos e comportados.
No Candomblé, os Erês, tem normalmente nomes ligados ao dono da coroa do médium. Para os filhos de Obaluaiê, Pipocão, Formigão, para os de Oxossi, Pingo Verde, Folinha Verde, para os de Oxum, Rosinha, para os de Yemanjá, Conchinha Dourada e por ai vai.
As Crianças da Umbanda tem os nomes relacionados normalmente a nomes comums, normalmente brasileiros. Rosinha, Mariazinha, Ritinha, Pedrinho, Paulinho, Cosminho, etc...
As crianças de Umbanda comem bolos, balas, refrigerantes, normalmente guaraná e frutas, os Erês do Candomblé além desses, comem frangos e outras comidas ritualisticas como o Caruru, etc... Isso não quer dizer que uma Criança de Umbanda não poderá comer Caruru, por exemplo. Com Criança tudo pode acontecer.
Quando incorporadas em um médium, gostam de brincar, correr e fazer brincadeiras (arte) como qualquer criança. É necessária muita concentração do médium (consciente), para não deixar que estas brincadeiras atrapalhem na mensagem a ser transmitida.
Os "meninos" são em sua maioria mais bagunceiros, enquanto que as "meninas" são mais quietas e calminhas. Alguns deles incorporam pulando e gritando, outros descem chorando, outros estão sempre com fome, etc... Estas características, que às vezes nos passam desapercebido, são sempre formas que eles têm de exercer uma função específica, como a de descarregar o médium, o terreiro ou alguém da assistência.
Os pedidos feitos a uma criança incorporada normalmente são atendidos de maneira bastante rápida. Entretanto a cobrança que elas fazem dos presentes prometidos também é. Nunca prometa um presente a uma criança e não o dê assim que seu pedido for atendido, pois a "brincadeira" (cobrança) que ela fará para lhe lembrar do prometido pode não ser tão "engraçada" assim.
Poucos são aqueles que dão importância devida às giras das vibrações infantis.
A exteriorização da mediunidade é apresentada nesta gira sempre em atitudes infantis. O fato, entretanto, é que uma gira de criança não deve ser interpretada como uma diversão, embora normalmente seja realizada em dias festivos, e às vezes não consegamos conter os risos diante das palavras e atitudes que as crianças tomam.
Mesmo com tantas diferenças é possível notar-se a maior características de todos, que é mesmo a atitude infantil, o apego a brinquedos, bonecas, chupetas, carrinhos e bolas, como os quais fazem as festas nos terreiros, com as crianças comuns que lá vão a busca de tais brinquedos e guloseimas nos dias apropriados. A festa de Cosme e Damião, santos católicos sincretizados com Ibeiji, à 27 de Setembro é muito concorrida em quase todos os terreiros do pais.
Uma curiosidade: Cosme e Damião foram os primeiros santos a terem uma igreja erigida para seu culto no Brasil. Ela foi construída em Igarassu, Pernambuco e ainda existe.



As festas para Ibeiji, tem duração de um mês, iniciando a 27 de setembro (Cosme e Damião) e terminando a 25 de outubro, devido a ligação espiritual que há entre Crispim e Crispiniano com aqueles gêmeos, pela sincretização que houve destes santos católicos com os "ibejis" ou ainda "erês" (nome dado pelos nagôs aos santos-meninos que têm as mesmas missões.
Nas festas de ibeiji, que tiveram origem na Lei do ventre-Livre, desde aquela época até nossos dias, são servidos às crianças um "aluá" ou água com açúcar (ou refrigerantes adocicados no dia de hoje), bem como o caruru (também nas Nações de Candomblés).
Não gostam de desmanchar demandas, nem de fazer desobsessões. Preferem as consultas, e em seu decorrer vão trabalhando com seu elemento de ação sobre o consulente, modificando e equilibrando sua vibração, regenerando os pontos de entrada de energia do corpo humano.
Esses seres, mesmo sendo puros, não são tolos, pois identificam muito rapidamente nossos erros e falhas humanas. E não se calam quando em consulta, pois nos alertam sobre eles.
Muitas entidades que atuam sob as vestes de um espírito infantil, são muito amigas e têm mais poder do que imaginamos. Mas como não são levadas muito a sério, o seu poder de ação fica oculto, são conselheiros e curadores, por isso foram associadas à Cosme e Damião, curadores que trabalhavam com a magia dos elementos.



Magia Da Criança


O elemento e força da natureza correspondente a Ibeji são... todos, pois ele poderá, de acordo com a necessidade, utilizar qualquer dos elementos.
Eles manipulam as energias elementais e são portadores naturais de poderes só encontrados nos próprios Orixás que os regem.
Estas entidades são a verdadeira expressão da alegria e da honestidade, dessa forma, apesar da aparência frágil, são verdadeiros magos e conseguem atingir o seu objetivo com uma força imensa, atuam em qualquer tipo de trabalho, mas, são mais procurados para os casos de família e gravidez.
A Falange das Crianças é uma das poucas falanges que consegue dominar a magia. Embora as crianças brinquem, dancem e cantem, exigem respeito para o seu trabalho, pois atrás dessa vibração infantil, se escondem espíritos de extraordinários conhecimentos.
Imaginem uma criança com menos de sete anos possuir a experiência e a vivência de um homem velho e ainda gozar a imunidade própria dos inocentes. A entidade conhecida na umbanda por erê é assim. Faz tipo de criança, pedindo como material de trabalho chupetas, bonecas, bolinhas de gude, doces, balas e as famosas águas de bolinhas -o refrigerante e trata a todos como tio e vô.
Os erês são, via de regra, responsáveis pela limpeza espiritual do terreiro.



Origem de "Doum"



Este personagem material e espiritual surgiu nos cultos Afros quando uma macamba (denominação de mulher, na seita Cabula) dava a luz a dois gêmeos e, caso houvesse no segundo parto o nascimento de um outro menino, era este considerado "Doum", que veio ao mundo para fazer companhia a seus irmãos gêmeos.
Foram sincretizados com os santos que foram gêmeos e médicos, tem sua razão na semelhança das imagens e missões idênticas com os "erês" da África, mas como faltava "doum", colocaram-no junto a seus irmãos, com seus pequenos bastões de pau, obedecendo à semelhança dos santos católicos, formando assim a trindade da irmanação.
Dizem também, que na imagem original de S. Cosme e S. Damião, entre eles (adultos) havia a imagem de uma criança a qual eles estavam tratando, daí para sincretizarem Doum com essa criança, foi um pulo...




Onde Moram as Crianças



A respeito das crianças desencarnadas, passamos a adaptar um interessante texto de Leadbeater, do seu livro "O que há além da Morte".
"A vida das crianças no mundo espiritual é de extrema felicidade. O espírito que se desprende de seu corpo físico com apenas alguns meses de idade, não se acostumou a esse e aos demais veículos inferiores, e assim a curta existência que tenha nos mundos astral e mental lhe será praticamente inconsciente. Mas o menino que tenha tido alguns anos de existência, quando já é capaz de gozos e prazeres inocentes, encontrará plenamente nos planos espirituais as coisas que deseje. A população infantil do mundo espiritual é vasta e feliz, a ponto de nenhum de seus membros sentir o tempo passar. As almas bondosas que amaram seus filhos continuam a amá-los ali, embora as crianças já não tenham corpo físico, e acompanham-nas em seus brinquedos ou em adverti-las a evitar aproximarem-se de quadros pouco agradáveis do mundo astral."
"Quando nossos corpos físicos adormecem, acordamos no mundo das crianças e com elas falamos como antigamente, de modo que a única diferença real é que nossa noite se tornou dia para elas, quando nos encontram e falam, ao passo que nosso dia lhes parece uma noite durante a qual estamos temporariamente separados delas, tal qual os amigos se separam quando se recolhem à noite para os seus dormitórios. Assim, as crianças jamais acham falta do seu pai ou mãe, de seus amigos ou animais de estimação, que durante o sono estão sempre em sua companhia como antes, e mesmo estão em relações mais íntimas e atraentes, por descobrirem muito mais da natureza de todos eles e os conhecerem melhor que antes. E podemos estar certos de que durante o dia elas estão cheias de companheiros novos de divertimento e de amigos adultos que velam socialmente por elas e suas necessidades, tomando-as intensamente felizes."
Assim é a vida espiritual das crianças que desencarnaram e aguardam, sempre felizes, acompanhadas e protegidas, uma nova encarnação. É claro que essas crianças, existindo dessa maneira, sentem-se profundamente entristecidas e constrangidas ao depararem-se com seus pais, amigos e parentes lamentando suas mortes físicas com gritos de desespero e manifestações de pesar ruidosas que a nada conduzem. O conhecimento da vida espiritual nos mostra que devemos nos controlar e nos apresentar sempre tranqüilos e seguros às crianças que amamos e que deixaram a vida física. Isso certamente as fará mais felizes e despreocupadas.


Casos de Criança


Algumas vezes, ficamos deslumbrados com a eficiência de seus trabalhos. Seguem-se duas narrações de casos resolvidos pelas crianças.Uma vez telefonou-me um fazendeiro assustado pelas mortes de seu gado. Achava ser trabalho feito. Ele foi no terreiro tendo sido atendido normalmente. No final do trabalho uma criança incorporada chamou-o e, com uma pemba, fez um desenho no chão como se fosse um mapa todo recortado. No meio desenhou três corações e um risco como um rio, fazendo um encontro com outro. “Tio”, falou, “os corações simbolizam seus três filhos.” O homem confirmou. Mostrando o mapa, disse ser a sua casa construída com vários pedaços. O homem explicou ter sua fazenda sido constituída por várias áreas. Apontando exatamente no encontro dos riscos, disse estar ali o problema, estando a água cheia de veneno e onde os bichinhos do tio estavam morrendo. Mais tarde o fazendeiro telefonou-me dizendo estar a água dorio realmente envenenada por agro-tóxico.

Outra vez, no encerramento do trabalho uma experiente médium deu sinais de incorporação de criança. Ela incorporou e batendo palmas, veio ao meu encontro pedindo um dólar. “Um dólar?” Respondi. “O que você vai fazer com um dólar?” Ela insistiu: “quero um dólar”. Achamos graça. A cena foi alegre e descontraída. “Alguém tem um dólar para a criança?” perguntei ironicamente. Da assistência uma moça fez sinal afirmativo. Fiquei perplexo. Somente eu conhecia o seu problema. Tinha câncer maligno nas cordas vocais e testava com a cirurgia marcada. Da ironia à seriedade, convidei a moça para entrar no terreiro e fazer a entrega do dólar ao erê. A entidade fez festa ao dólar, deixou-o de lado e agarrou-se na garganta da moça fazendo-lhe leves passes magnéticos. Ela fez a cirurgia na terra, mas está curada.



Fonte:www.aucar.com.br/criancas.html

sábado, 17 de setembro de 2011

Saúde da População Negra










O perigo que nos ronda
Às vezes somos surpreendidos por descobertas que se destacam nas ciências da saúde, principalmente nos últimos 50 anos. tratamentos que possibilitam maior qualidade de vida para quem sofre de doenças até consideradas incuráveis

SEMPRE SE QUESTIONOU SE EXISTE REALMENTE MAIOR INCIDÊNCIA DE CERTAS DOENÇAS ENTRE OS NEGROS. Males como anemia falciforme, aneurisma da aorta, câncer de próstata, diabetes, hipertensão, glaucoma e miomas – as quais, diferentemente da AIDS, são consideradas hereditárias – têm sido bastante discutidos na área médica. A questão dá margem ao debate da relação entre “raça” e doença. Mas, será que faz sentido falar em “doenças raciais”? O estudo do seqüenciamento do genona humano já permitiu chegar aos halotipos (os fatores que levam cada indivíduo a ter predisposição genética), que poderão ajudar a desvendar os genes responsáveis por várias doenças. O que existe de novo nos tratamentos desses males ditos raciais?

GLAUCOMA
O glaucoma representa uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo. É uma doença causada pelo aumento da pressão ocular que pode resultar em danos irrecuperáveis ao nervo óptico, levando à perda lenta e progressiva da visão. Esse mal pode ser detectado somente por um exame oftalmológico cuidadoso, em que o especialista mede a pressão intraocular e o exame do fundo de olho. Pessoas da raça negra têm maior predisposição (quatro vezes mais) de serem afetadas pelo glaucoma em relação às da raça branca. No mundo todo, inúmeras pesquisas estão sendo realizadas para esclarecer quais são as verdadeiras causas do glaucoma, melhorar os meios para se chegar aos diagnósticos e tornar o tratamento eficaz e mais fácil. Uma companhia de Taiwan desenvolveu com sucesso uma recente invenção – a Matriz Colágeno, que aumenta significativamente o índice de sucesso para cirurgia não apenas de glaucoma, mas de outras operações oftálmicas. O Implante de Matriz Colágeno OculusGen (R) foi aprovado por quatro hospitais universitários, tanto em Taiwan como na China. Na maioria dos casos o glaucoma progride lentamente sem que o paciente perceba a perda gradual da visão lateral. Em algumas raras ocorrências os sintomas oculares são bem definidos, como, por exemplo, dor nos olhos ou ao redor deles à alteração da visão, como halos coloridos. O risco de contrair glaucoma aumenta com a idade, e é mais comum após os 40 anos. Além disso, pessoas com casos de glaucoma na família estão mais propensas a contrair a doença, por isso têm de ser examinadas periodicamente pelo oftalmologista.

DOENÇA FALCIFORME
Antigamente era considerada doença fatal, e os pacientes morriam antes de completar 30 anos. Isso ocorria por causa de infecções, insufi ciência renal e cardíaca e trombose. Considerada um “erro celular”, a anemia falciforme é uma doença que no futuro poderá ser combatida com a tecnologia desenvolvida a partir da Biologia Molecular, conhecida como siclemia ou sicklemia, e foi descoberta em 1904 por um
médico americano, ao atender um estudante negro com fraquezas e dores de cabeça. Ao examinar uma amostra de sangue do paciente, ele percebeu que as células vermelhas estavam diminuídas pela metade, e que havia grande número de corpúsculos fi nos, alongados e em forma de foice. O portador do traço genético falciforme nem sempre desenvolve a doença, para que isso aconteça é preciso que o pai e a mãe apresentem o problema. Os glóbulos vermelhos que contêm a hemoglobina também sofrem mutação e adotam a forma de foice, por isso o nome anemia “falciforme”. Esse mal faz os glóbulos vermelhos perderem a elasticidade, causando microenfartos em diversas partes do corpo. Uma provável mutação genética que aconteceu na África há milhões de anos pode ser a causa desse tipo de anemia. A freqüência é maior entre os negros, e atinge 4 em cada 1.000 indivíduos no mundo. Parece pouco, mas em certas regiões da África a presença do gene pode chegar a 40% da população negra; nos EUA e em Cuba, a média de vida das pessoas que sofrem desse mal é de 56 anos. No Brasil o gene dessa anemia afeta 6% da população brasileira, ou pouco mais de 11 milhões de pessoas, e a média de vida oscila entre 18 e 21 anos, mas é alta a taxa de mortalidade de crianças falcêmicas menores de 5 anos. Considerando-se negros e pardos, o índice sobe para 10% – 8 milhões de pessoas. Mas foi da África que chegou o primeiro remédio: Jérôme Fagla Médégan, médico de Benin, descobriu uma fórmula que permite prevenir a doença. O VK 500 permitiria aos glóbulos vermelhos recuperarem a forma original e salvar perto de 200 mil africanos que nascem, por ano, com esse mal. O remédio à base de plantas só foi utilizado in vitro. Até então se usava analgésicos, transfusões de sangue regulares, que não atacavam o problema na raiz. A produção do remédio logo será iniciada: um laboratório na França aceitou produzilo depois que o Instituto Francês de Propriedade Industrial concedeu a Fagla Médégan a patente pela descoberta. A prevenção no tratamento dessa anemia é fundamental.

MIOMAS
Estudos com mulheres negras e brancas revelaram a prevalência de miomas em 41,6% das mulheres negras. Muito confundido com o cisto, um não é sinônimo do outro. O cisto, que lembra uma bexiga cheia de líquido, se localiza no ovário, enquanto o mioma é um tumor sólido que ocorre no útero. Já existe no Brasil um método sem cortes que usa o calor para eliminar esses tumores benignos que surgem no útero de metade das mulheres brasileiras em idade fértil. O Hospital Barra D’Or, no Rio de Janeiro, colocará em funcionamento o primeiro equipamento que combate o problema com ondas de calor e sem cortes cirúrgicos. A técnica associa um aparelho de ultra-som, que dispara ondas de alta freqüência, a outro de ressonância magnética, que fornece imagens do interior do útero para guiar a aplicação a pontos específi cos dos miomas. O procedimento aumenta a temperatura nos tecidos que formam o tumor a cerca de 100 graus, levando-o à destruição. Desde 2005, a FDA, agência americana que regulamenta procedimentos de saúde, estuda a utilização desse tratamento para outros tumores, como câncer de próstata.


CANCÊR DE PROSTATA
Se o câncer de mama ou do colo do útero é o terror das mulheres, a contrapartida para o sexo oposto está no não menos temido câncer de próstata que tem relação direta com a idade, quantidade de testosterona, hereditariedade, raça, alimentação e país de origem. Os homens negros têm maior predisposição genética para desenvolver câncer de próstata. Nos Estados Unidos, demonstrouse que as chances de um negro ter câncer de próstata são duas vezes maiores que a de um branco. No Brasil, em estudo com 470 homens, o especialista na área, dr. Edson Paschoalin, professor da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública, de Feira de Santana (BA), verifi cou que os negros tinham nove vezes mais chances de contrair esse tipo de doença. A Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Paraná e a Sociedade Brasileira de Urologia já pesquisam um remédio à base de isofl avona de soja, para o tratamento e a prevenção desse câncer. O remédio já está em fase de produção no Brasil. Estudos recentes indicam que os fermentados de soja têm um tipo de isofl avona mais efi ciente do que as encontradas em grãos. Com base nisso, a Unicamp desenvolveu um processo de fermentação, patenteado pela Steviafarma. A previsão de lançamento é de dois a três anos. Está envolvido no projeto um grupo de 24 pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá e da Steviafarma. Os núcleos de Saúde e prevenção afi rmam que a maioria dos homens desconhece onde está localizada a próstata e qual a sua importância. Tudo o que escutam sobre o assunto basta para afastá-los do exame de prevenção. Mas um dos grandes riscos do câncer de próstata está no fato de a doença não apresentar sintomas na fase inicial, justo quando há chances de curas. Hoje, com o diagnóstico precoce, esse mal pode ser tratado com cirurgia ou com radioterapia. Para identifi cá-lo, além do toque retal, os urologistas submetem os pacientes à coleta de sangue, para que o PSA, substância produzida pela próstata, seja dosado. Em caso de suspeita, é feita uma biópsia, procedimento no qual se colhe uma amostra, de tecido ou células, para posterior estudo em laboratório.


HIPERTENSÃO ARTERIAL
A Hipertensão Arterial Essencial (HAE) e os fatores de risco cardiovasculares têm um elevado índice na população, e é mais freqüente em indivíduos de etnia negra. Com alguns sintomas graves e outros imperceptíveis, muitas pessoas que não sabem que estão com a doença permanecem assim por vários anos. Já quando sinais e sintomas específi cos aparecem, em geral, revelam uma lesão extensa e grave do sistema vascular (que inclui o coração, as artérias e veias), causando infartos e dores no peito, além de, às vezes, sobrecarregar ainda os rins. Elevações ocasionais da pressã
o também podem ocorrer com exercícios físicos, nervosismo, drogas, alimentos, fumo, álcool. Cerca de 40% de casos de ataque do coração e 50% de casos de infarto ocorrem entre 6 horas e meio-dia. Um estudo mostrado no último encontro da Sociedade Européia de Hipertensão defi ne que a substância telmisartana oferece proteção durante a manhã, quando é maior a elevação da pressão arterial, responsável pelo aumento nos riscos de ataques do coração e infartos.


DIABETES
Provocada pela defi ciência de produção e/ou de ação da insulina, a doença leva a sintomas agudos e a complicações crônicaste. O distúrbio envolve o metabolismo da glicose, das gorduras e das proteínas e tem graves conseqüências. Hoje se constitui em problema de saúde pública pelo número de pessoas que apresentam esse mal, principalmente, no Brasil. Os tipos conhecidos da doença são Mellitus tipo I: destruição da célula beta do pâncreas, com a defi ciência absoluta de insulina; Mellitus tipo II: causado
por um estado de resistência à ação da insulina associada à relativa defi ciência de sua secreção; a Gestacional: a doença é diagnosticada na gestação, em paciente sem aumento prévio da glicose. Mas há outras formas de Diabetes Mellitus quando há as desordens genéticas: infecções, doenças pancreáticas, por uso de remédios ou drogas. O Brasil se dedica ao estudo do diabetes, ao controle e às pesquisas. Um estudo relacionado à mudança de hábitos, à reeducação alimentar e aos exercícios físicos constatou que o nível de açúcar no sangue abaixa e assim a pressão arterial e o colesterol também fi cam controlados. Esses fatores permitem a prevenção de possíveis complicações da doença, por exemplo, a do tipo 2: infarto do miocárdio e outros males coronarianos. O National Institute of Health (NIH), em Maryland, nos EUA, liberou 2,1 milhões de dólares para ser usados por uma equipe da Universidade do Texas, em Austin (EUA), para desenvolver uma cápsula oral de insulina que substituirá as injeções diárias. Espera-se que esteja no mercado em cinco anos.


SERÁ QUE A RAÇA É A CULPADA?
De acordo com a professora Silviene Fabiana de Oliveira, do Departamento
de Genética e Morfologia da Universidade de Brasília, “as pessoas acham necessário classifi car todas as coisas e utilizam essa palavra de forma simplista”, ressaltando ainda que os indivíduos não devessem nem mesmo ser classifi cados em raças, citando também o erro de, rotineiramente, ser feita a afi rmação de que alguns têm predisposição para adquirir alguma doença por conta da cor de pele. Igualmente para a genética de populações não faz sentido falar em doenças “raciais” porque “o uso médico de distinções raciais tende a perpetuar racionalizações pseudocientífi cas de diferenças entre grupos humanos. Certamente há diferenças distintas de saúde entre as ditas categorias ‘raciais’, mas isso tem muito menos a ver com genética do que com diferenças culturais, de dieta, status social, acesso aos cuidados médicos, à marginalização social, discriminação, estresse e outros fatores. Alguns médicos defendem que o conceito de raça seja banido da medicina brasileira. Enquanto a discussão acontece em nível intelectual, as novas descobertas científi cas podem ser a esperança para algumas das doenças ditas “características” da raça negra.




fonte: POR SONIA NASCIMENTO/ ILUSTRAÇÃO SÍLVIO/REVISTA RAÇA BRASIL/unegro-Volta Redonda



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