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sábado, 11 de agosto de 2012

Padrão de beleza e Auto Estima


"Não tenho vergonha do meu cabelo. Tenho vergonha do seu racismo”. A frase, estampada em grafite, numa figura com cabelo black-power, numa grande avenida de Fortaleza, capital do Ceará, define bem um momento especial vivenciado por movimentos, organizações, grupos culturais e entidades que – de diversas formas – trabalham com a questão negra: o reconhecimento e o orgulho de ser negro.”

Mesmo longe de se tornar a democracia racial apregoada por Gilberto Freyre, em sua obra maior, Casa-Grande & Senzala, na década de 1930, hoje, muitos negros têm superado os obstáculos que os impediam de conquistar status, antes exclusivos de brancos das "famílias tradicionais".
É óbvio que as crises atingem a todos e sabemos que, nessas horas, a população afro-brasileira é a primeira a ser alijada de suas conquistas. Mas a chamada "classe média negra", já ultrapassa os 15% da população, segundo pesquisa do IBGE. Desde a última década do século 20, o número de chefes de família negros que ganham mais de cinco salários mínimos praticamente dobrou.
Já nos primeiros anos deste século, falava-se que a parcela dos 20% de brasileiros mais ricos era formada por 80% de brancos, mas que os negros já quase atingiam 19%. E, apesar da luta constante dos sempre privilegiados e de vários meios de comunicação apregoando contra as ações afirmativas e, em especial, contra as cotas em universidades, o número de estudantes negros que chegam aos cursos superiores dobrou em relação às três últimas décadas do século passado.
Até fritar o cabelo, se quiser, ou frisá-lo, usar dread look ou raspar a cabeça. Mais que uma estética, privilegiou a liberdade. E a gente tem de exigir o melhor para nós mesmos, a elegância, juntar a beleza interior com a exterior", comenta. O ator, um dos mais influentes do Brasil, faz questão de mostrar a importância do negro na sociedade brasileira, com cerca de 90 milhões de afrodescendentes.
Seu sonho é um reavivamento do sentido de clã. "Se 10 milhões de negras resolvessem, por exemplo, sabotar a compra de um sabão que elas consomem, mas cuja publicidade não utiliza negros, ou escrevessem à direção das empresas, editoras e agências por se sentirem ausentes nas publicações, em espetáculo, no carnaval, enfim, em tudo o que é realizado, a história seria diferente. Por que comprar o produto que nos rejeita? Por que assistir a um espetáculo que nos trata como inferiores?", finaliza.

Ainda temos uma longa caminhada.


A baixa autoestima é muito presente na personalidade de mulheres negras que aprendem desde pequenas que suas características não fazem parte do padrão de beleza e nem são tão aceitáveis pela sociedade quanto as características de uma mulher branca. Por isso, a maioria procura modificar suas características alisando o cabelo, por exemplo. Quando entramos numa banca de revista, não encontramos modelos negras, a maioria é branca, tipo europeia. O mesmo acontece na tv e nos blogs femininos de moda e beleza. E quando uma mulher negra decide assumir sua aparência natural é alvo de críticas. Também faz parte de nossa realidade, como mulheres negras, enfrentarmos o racismo e o precoceito enraizados na nossa sociedade. Um caso que ficou conhecido na mídia foi o de uma funcionária de um colégio particular de São Paulo que foi intimidada pela diretora a alisar seu cabelo sob a alegação de ser o “padrão” da instituição. Isso é um exemplo do racismo velado existente no nosso país que quando não é admitido, tenta-se justificar com motivos descabidos. Por causa desse racismo velado, a mulher negra tem mais dificuldade, por exemplo, de encontrar emprego ou ascender profissionalmente. A grande maioria ainda trabalha em funções mais baixas e também ganha o mais baixo salário em todo o país.

Os homens negros também colaboram para a baixa autoestima da mulher negra quando têm preferência pelos padrões de beleza impostos pela sociedade. Por incrível que pareça, o parceiro negro de uma mulher negra influencia (pra não dizer “determina”) no modo como ela cuida do cabelo, optanto, muitas vezes, por deixá-los lisos e compridos recorrendo, inclusive, a alongamentos.

Acredito que a grande parte das pessoas sofre de baixa autoestima e que a psicologia ou psicanálise podem ajudar a resolver o problema, porém, no caso da mulher negra, ainda é preciso uma solução mais complexa que exige uma profunda renovação de valores, autoaceitação e coragem para nadar contra a corrente do preconceito.

Por falar em concurso de beleza:

A vitória da angolana Leila Lopes, eleita a mais bela mulher do mundo, representa muito neste Ano Internacional dos Afrodescendentes declarado pela ONU, e tem um significado ainda mais especial pelo fato dessa eleição ter acontecido no Brasil – país com maior população negra do mundo fora da África.
Não foi a primeira vez que uma mulher negra venceu. Em 1.977, Janelle “Penny” Comissiong Chow, de Trinidad Tobago, tornou-se a primeira negra a conquistar o Miss Universo. Mas foi a primeira vez que uma africana conquistou o título em 60 anos de concurso.
O fato acontece no Brasil, país em que apesar de sua população majoritariamente negra (somos 50,7% de pretos e pardos, de acordo com o Censo do IBGE 2010), ainda tem o loiro escandinavo, de olho azul, como modelo único de beleza.

O padrão eurocêntrico imposto tem sido o instrumento ideológico, por meio do qual o racismo destrói a autoestima das crianças negras, especialmente das meninas, vítimas do alisamento forçado dos cabelos, da “chapinha” a que se auto-impõem, mecanismos por meio dos quais buscam se adequar à estética branca dominante.

No Brasil do mito da democracia racial, ainda é comum o uso da expressão “cabelo ruim” para se referir ao crespo dos cabelos negros.

A eleição da Miss Angola como a mulher mais bela do mundo pode contribuir para o fim desta ditadura estética, contribuindo para a elevação da autoestima de quem não se enquadra no padrão eurocêntrico dominante: negros, índios, orientais, ciganos etc.

Com toda a certeza, o símbolo em que a angolana se tornou a partir deste Miss Universo – e justo na cidade mais negra do mundo fora da África, que é São Paulo – contribuirá para que as meninas negras comecem a se libertar das “chapinhas” e, ao assumirem sua própria estética, reforçar e fortalecer sua auto-estima.
Se somos vários, porque deveríamos nos enquadrar em padrões únicos? Se temos tantos modelos de beleza (brancos, negros, índios, orientais), porque devemos aceitar a ditadura de um único – o loiro escandinavo -, herança das políticas de branqueamento adotadas pelo Estado, notadamente, nas primeiras quatro décadas do século XX?

Se liga:

Na verdade, Leila Lopes é a quarta mulher africana a se tornar Miss Universo. Antes dela, foram eleitas duas sul-africanas (ambas brancas) e uma de Botsuana. Veja matéria com entrevista da Miss Brasil, 1.989, Flávia Cavalcante.
O antropólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB) José Jorge de Carvalho defende que esta evolução no percentual demonstra um aumento também na auto-estima desse segmento da população.

Para Carvalho, a mudança, tanto nos números quanto na auto-estima de pretos e pardos, se dá por uma série de fatores. O principal, na opinião dele, é o aumento do debate sobre a questão racial no Brasil e a adoção de políticas públicas de valorização desse segmento.

Outro fator é o fortalecimento do movimento negro e também o surgimento de personalidades negras em diversos setores da sociedade. "O que eu posso ser? Tudo o que estou vendo é que fui escravo, mas agora posso ser algo diferente. Talvez eu possa ser presidente, ministro do Supremo Tribunal Federal, um corredor da Fórmula 1", exemplifica a estudante de História na UnB Luiana Maia, referindo-se a Barack Obama, eleito presidente dos EUA; a Joaquim Barbosa, ministro do STF, e a Lewis Hamilton, campeão mundial de Fórmula 1.


Revista Raça 13 anos de valorização da beleza negra:

Advogado Hédio Silva –“Claro que ainda há muito a se fazer para uma maior valorização da raça negra, principalmente mudar as cabeças viciadas pelos preconceitos e racismo à brasileira que resultam em atitudes discriminatórias em vários aspectos. O advogado Hédio Silva, que foi secretário de Estado da Justiça, em São Paulo, comenta que geralmente causa estranheza um negro ocupar um cargo dessa envergadura num governo.
Quando ele chegava a algum evento ou órgão público e não era conhecido, pessoas se dirigiam a seu motorista dizendo: "Seja bemvindo, secretário!". Simplesmente porque o motorista era branco. Estamos festejando a chegada da revista RAÇA à adolescência, mas recomendamos aos mais otimistas que guardem os fogos para alguma ocasião futura mais propícia. Afinal, para os afro-brasileiros, o País pode ter melhorado nestes 13 anos, "pero no mucho". Mas a gente jamais vai desistir.”

“Autoestima, seja qual for o nível, é uma experiência íntima; reside no cerne do nosso ser. É o que EU penso e sinto sobre mim mesmo, não o que o outro pensa e sente sobre mim. Quando crianças, nossa autoconfiança e nosso autorrespeito podem ser alimentados ou destruídos pelos adultos conforme tenhamos sido respeitados, amados, valorizados e encorajados a confiar em nós mesmos. Mas, em nossos primeiros anos de vida, nossas escolhas e decisões são muito importantes para o desenvolvimento futuro de nossa autoestima.” 


Dados Importantes:
A população negra que forma o Brasil constitui 52% do total de 180 milhões de pessoas, segundo o IBGE. - Desses, 34%, estão abaixo do nível de pobreza, de acordo com levantamento feito pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. 

- A taxa de desemprego para a população negra é de 20,9%, enquanto a taxa da população branca fica em 13%.  
- O Brasil possui a 2ª maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria.

- Quanto à exposição ao vírus HIV, entre os grupos mais atingidos estão as mulheres, as gestantes e seus filhos. Em 1985, a relação era de 30 homens infectados para apenas uma mulher. Atualmente, ela é de um homem para uma mulher – na sua maioria, mulheres negras, o que configura uma feminilização e racialização da contaminação por HIV.

- As desigualdades e discriminações ainda não foram superadas no contexto educacional: os livros didáticos ainda reproduzem estereótipos de gênero e raça, e comportamentos na sala de aula e alguns materiais utilizados ainda são grandes desafios para a redução dessas discriminações.

- Os homens brancos ganham, em média, 113% mais que os homens negros; e as mulheres brancas, 84% mais que as mulheres negras. Escala da exclusão no mercado de trabalho, por gênero e raça: 1º- mulher negra, 2º - homem negro, 3º - mulher branca, 4º - homem branco.

- As mulheres ainda ocupam menos das 9% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 12% no Senado. Em Pernambuco, dos 49 parlamentares, apenas 7 são mulheres; dessas, apenas duas são negras.

Um afro abraço




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