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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Machado de Assis em ¨Preto e Branco¨

Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que viria a tornar-se o maior
escritor do país e um mestre da língua, perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e o matricula na escola pública, única que frequentara o autodidata Machado de Assis.

De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Criado no morro do Livramento, consta que ajudava a missa na igreja da Lampadosa. Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é até provável que assistisse às aulas nas ocasiões em que não estava trabalhando.

Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender. Consta que, em São Cristóvão, conheceu uma senhora francesa, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de Francês. Contava, também, com a proteção da madrinha D. Maria José de Mendonça Barroso, viúva do Brigadeiro e Senador do Império Bento Barroso Pereira, proprietária da Quinta do Livramento, onde foram agregados seus pais.

Aos 16 anos, publica em 12-01-1855 seu primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito. A Livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo.

Com 17 anos, consegue emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, e começa a escrever durante o tempo livre. Conhece o então diretor do órgão, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, que se torna seu protetor.

- É o fundador da cadeira nº. 23, e escolheu o nome de José de Alencar, seu grande amigo, para ser seu patrono.
- Por sua importância, a Academia Brasileira de Letras passou a ser chamada de Casa de Machado de Assis.

Se liga :Dizem os críticos que Machado era "urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, ignorou questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura. Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não houvesse outro lugar. ... A galeria de tipos e personagens que criou revela o autor como um mestre da observação psicológica. ... Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando desenvolveu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos."

A temática da escravidão e do negro está completamente ausente da obra de Machado de Assis em sua primeira fase. Isso não é à toa, e não ocorreu porque era uma temática pouco relevante para o autor: certamente não esquecera de sua infância marcada pela pobreza, de sua descendência de escravos, de sua pele negra que devia ter lhe custado uma boa dose de sofrimento em sua própria vida, a despeito de que tenha conseguido ascender socialmente. Ocorre que, a alguém interessado em galgar degraus de uma posição social humilde rumo à inclusão entre a intelectualidade da classe dominante – ainda mais alguém negro – certamente não era conveniente tocar em um tema tão polêmico antes de firmar seu lugar social. E foi o que Machado fez. Paralelamente à ausência do tema do negro nessa fase de sua literatura, se deu o processo de “embranquecimento” do autor. Hoje mesmo raramente encontramos alguma referência à cor de Machado que não o classifique como “mulato”, termo que deriva da palavra “mula”, designando a mestiçagem. Isso quando muito. Na época, certamente a referência à negritude de Machado tornava-se um tabu cada vez maior conforme ele era incluído nos círculos “bem pensantes” da sociedade carioca, que incluíam racistas empedernidos do

calibre de um José de Alencar – grande amigo pessoal de Machado e autor das “Cartas a favor da escravidão”, escritas entre 1867 e 1868, defendendo a manutenção da instituição no Brasil quando já entrava em decadência mundialmente. Não seria demasiado classificar Alencar como uma espécie de “precursor intelectual” da teoria racista da “democracia racial” de Gilberto Freyre, a partir de romances como Iracema, em que apresenta uma visão idealizada e idílica da barbárie colonizadora dos portugueses como um simbólico romance entre uma índia e um português. Vale ressaltar que o nome de Alencar foi defendido por Machado para ser o patrono da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, tamanha era a admiração que nutria pelo seu amigo escravocrata.

A maturidade: a crítica social de um cínico...
Quando Machado já se encontra em uma posição social de conforto, tendo seu nome assegurado no cânone literário e sua condição econômica garantida, o autor irá realizar o melhor de sua obra, expressando aquilo que merecidamente o consagraria como um dos grandes autores da literatura mundial. É então que aparece a sua crítica social. Esta, no entanto, não é a de um autor que se indigna diante de uma sociedade de miséria, empenhando seus esforços em transformá-la, como vemos, por exemplo, nos poemas abolicionistas de Castro Alves. É a de alguém que tem a consciência plena de que nada irá mudar, e cabe apenas um apontamento pessimista, cínico e resignado da tamanha hipocrisia de uma sociedade da qual o próprio autor se tornou um “medalhão”. O cinismo de Machado ao criticar a sociedade é o de alguém que sabe que está cuspindo no prato em que comeu.

Para exemplificar essa postura, particularmente em relação à escravidão e ao racismo, tomamos aqui quatro exemplos. O primeiro é o famoso capítulo LXVIII de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “O Vergalho”, em que o antigo escravo alforriado de Brás Cubas, Prudêncio, é flagrado por ele castigando violentamente um outro negro publicamente, açoitando-o com um vergalho. A postura de Prudêncio, mesmo alforriado, diante de seu antigo senhor, é a de completa submissão, chamando-o de “nhonhô” e cessando os castigos ao pedido desse, respondendo

-Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede.” Assim fala Brás Cubas ao leitor: “Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, - transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera.

Finalizando:Os negros escravizados no Brasil, bem diferente de como aparecem na literatura de Machado, não eram meramente “coitados submissos”. Criaram milhares de Quilombos, protagonizaram enormes lutas de resistência, mataram senhores, fugiram aos milhares. Resistiram, sempre. Muito diferente da postura cínica que apresenta Machado quando, por meio de seu irônico narrador em “Pai contra mãe”, afirma: “(...) os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia

ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada”. A ironia de Machado dirige-se não apenas contra os senhores, mas também contra ele próprio, que não deixa de ser um pouco cúmplice desse estado de coisas. E naturaliza o mito de que os negros eram passivos diante da escravidão. Não eram, e, diferente de Machado, nunca tiveram a opção de se contentar em escrever linhas mordazes satirizando a escravidão. Para resistir, precisaram lutar, e muito, como ainda hoje o fazem contra uma sociedade racista que relega a eles o que há mais brutal na exploração e opressão.


Um afro abraço.
Claudia Vitalino.
fonte:www.pragmatismopolitico.com.br/.www.esquerdadiario.com.br/www.passeiweb.com/estudos/

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