Somos...

Somos...
Rebele-se Contra o Racismo!

domingo, 16 de agosto de 2015

Nossa Historia nossa gente: Jesse Owens

A participação do negro no esporte mundial tem suscitado a curiosidade e o interesse de muitas pessoas, estejam elas ligadas diretamente às áreas das atividades físicas, ou não. Também, algumas pesquisas, dentro desse tema, já foram feitas para tentar explicar o
desempenho dos atletas negros em algumas modalidades esportivas, sendo quase que exclusivamente voltadas para as “individualidades biológicas” dos afro-descendentes. 

"Há certas pessoas que estão acima de pautas, escopo de trabalho. Jesse Owens é uma delas. O sujeito que calou a boca de Adolf Hitler diante de 100 mil pessoas".

Tendo sua origem no feito do lendário corredor norte-americano Jesse Owens, na Olimpíada de Berlim, em 1936, a proposta deste artigo é justamente oferecer uma releitura do negro no esporte e refletir como foram produzidas, através da história, várias representações que engendraram muitas identidades neste sujeito, priorizando desnaturalizar uma destreza, a priori, para determinados esportes e outros, não. A questão do conhecimento que orientou esta pesquisa foram os estudos culturais e sua perspectiva da produção de identidade. Para tanto, procura-se resgatar um pouco da história da Educação Física no Brasil e seus primeiros olhares para as pessoas negras, mostrando como ela foi usada pelo movimento eugênico, para seus intentos de melhoria da raça brasileira.

Um discurso étnico-racial...

Temos observado ainda, muitas discussões a cerca da cor, dos brasileiros principalmente. Alguns cientistas de diversas áreas têm debatido sobre esse assunto. Enquanto alguns tentam demonstrar a diferença genética entre brancos e negros com a superioridade dos brancos, outros como Gilberto Freyre, que "enriqueceu" a ciência com a teoria Casa Grande – Senzala, onde se baseava os costumes da época, para ele os negros viviam numa paz regozijante da escravidão que se tornaram produtos dela, estudando a sociedade, isto não quer dizer que estavam corretos nas suas análises.

A Educação Física, aos poucos, foi adentrando no país; em 1931 torna-se obrigatória, por lei, a sua prática nas escolas secundárias, como promotora da saúde física, da educação moral e da regeneração da raça. Adotou-se, primeiramente, o método francês ou militar, que buscava eficiência nos movimentos, de forma racional e metódica, visando obter qualidades físicas e morais do indivíduo, de forma disciplinada.

A institucionalização da Educação Física no ensino brasileiro veio atender aos discursos
eugênico e autoritário do Estado, nos anos de1930, quando , também, foi intensa a entrada de livros e artigos, de cunho eugênico, de autores estrangeiros, como o periódico de Irving Fischer, A nova educação física, destacado por Catarino Filho (1982, p. 168-169):

“A nova educação física deverá formar um homem típico que tenha as seguintes características: talhe mais delgado que cheio, gracioso de musculatura, flexível, de olhos claros, pele sã, ágil, desperto, erecto, dócil, entusiasta, alegre, viril, imaginoso, senhor de si mesmo, sincero, honesto, puro de atos e de pensamentos, dotado com o senso de honra e da justiça, comparticipando do companheirismo de seus semelhantes'...

Jesse Owens: a performance esportiva

“O que importa são as rupturas significativas – em que velhas correntes de pensamento são rompidas, velhas constelações deslocadas e elementos novos são reagrupados ao redor de uma nova gama de premissas e temas”.

Jesse Owens, o “antílope de ébano”, como ficou conhecido por sua grande velocidade, saiu da bacia do Mississipi, no sul dos Estados Unidos - onde foram cometidas muitas atrocidades em nome do preconceito racial contra os negros - e veio a ganhar quatro medalhas de ouro na Olimpíada de Berlim, em 1936, de 100 m rasos, 200m, revezamento 4X100m e salto em distância, causando a irritação de Hitler e sua propaganda nazista de superioridade da raça ariana.

A performance de Jesse Owens quebrou um discurso secular de inferioridade das pessoas negras dentro do esporte, principalmente olímpico, e inspirou outros atletas negros a se lançarem no mundo do esporte; um deles foi Carl Lewis, considerado o sucessor de Owens,
também vindo do Mississipi. Lewis também ganhou quatro medalhas de ouro em Seul, em 1988.

O feito de Jesse Owens, até então, não tinha sido realizado por nenhum outro atleta de qualquer outra etnia. Esta conquista tornou-se um divisor de águas; um deles, foi o número cada vez maior de negros que começou a se destacar no atletismo mundial, de forma marcante, nas provas de velocidade e salto em distância, como também, superando, até então, a divisão de esporte de negros e esporte de brancos.

A partir dos resultados de Jesse Owens e do avanço das técnicas de treinamento, a raça negra começou a ser vista como objeto de estudo pela ciência do esporte. O negro passa de uma concepção de inferior, dentro de um movimento evolucionista, darwiniano e eugênico, para a rotulação a certos esportes em que a questão econômica não era um empecilho, como: o atletismo, principalmente nas provas de velocidade, pois, mais tarde os atletas negros se destacariam, também, nas provas de meio fundo e fundo, boxe e o futebol.

Na corrente de ascensão do treinamento esportivo, o esporte olímpico fugiu ao ideal do Barão de Cobertim, idealizador dos Jogos Olímpicos da era moderna. A "união entre os povos” era o que ele priorizava, mas, os jogos viraram uma disputa política dentro do esporte. O bloco socialista e o capitalista lutavam por uma superioridade dentro do campo esportivo. Esse período ficou conhecido como guerra fria, onde o primado no esporte era de quem possuía as melhores técnicas de treinamento e conseguia obter os melhores resultados.

A fisiologia, a cinesiologia e a anatomia passaram a exercer papel preponderante nesta filosofia; surgem os princípios do treinamento esportivo que vigoram até hoje na preparação física, sendo que, um deles, o da “individualidade biológica”, é o escopo do presente estudo. A individualidade biológica analisa os indivíduos e suas características genotípicas e fenotípicas para dirigi-lo a uma determinada modalidade esportiva e os métodos de treinabilidade. Essa nova proposta moldou o sujeito negro a determinados esportes e a representá-lo como corredor nato de velocidade, uma representação gerada a partir do crescente aparecimento de velocistas negros.

Como já mencionado, o sujeito negro foi alvo de muitos estudos, dentro do campo esportivo, e a fisiologia procurou decompô-lo em sistemas de funcionamento isolado. Atribuíram o desempenho dos atletas negros velocistas, segundo os estudos de Cintra Filho (1997), ao seu alto percentual de fibras rápidas, quadril mais estreito, quadríceps mais robusto e pernas (segmento do membro inferior abaixo do joelho até o tornozelo) mais finas; tudo isso para proporcionar uma melhor aerodinâmica para o deslocamento em alta velocidade. Também, foram buscar respostas na África, onde os corredores de provas de velocidade provinham da parte ocidental e os de prova de longa duração, da parte oriental; sendo essas duas regiões separadas, geograficamente, durante muito tempo, pela grande fossa africana ao leste, oriundas, no passado, por erupções vulcânicas e ao norte, pelo árido clima do deserto.

Outra questão inquietante é que tal supremacia dos velocistas negros e fundistas (corredores de longas distâncias) só ocorre entre o sexo masculino, sendo que, no feminino, existe um equilíbrio. Não é objetivo deste trabalho aprofundar-se nesta questão, pois, trata-se de assunto para outro estudo, mas, uma pergunta instiga, sob essa perspectiva: na cultura patriarcal em que são educados homens e mulheres de qualquer grupo étnico-racial, as habilidades corporais masculinas não são sempre mais favorecidas?

Recentemente, presencia-se a ruptura do sujeito negro, frente a estes discursos preestabelecidos pela ciência. Um exemplo disto é o nadador negro do Suriname, Anthony
Nesty, que ganhou em Seul, em 1988, a medalha de ouro no nado borboleta, modalidade que exige maior esforço e técnica do atleta. Nesty ganhou de dois ícones da natação mundial, o norte-americano, Mattheu Biondi e o alemão ocidental Michel Gross.

No Suriname, havia uma única piscina oficial de 50m, onde Nesty treinava, o bastante para o atleta negro ganhar uma bolsa de estudos na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos e tornar-se o primeiro e único negro a ganhar uma medalha de ouro de natação dos Jogos Olímpicos. Outro exemplo que quebrou o discurso sobre a fraca performance do negro na natação é o nadador brasileiro Edivaldo Valério, primeiro negro a compor a equipe olímpica da natação brasileira e a ganhar uma medalha de bronze nas Olimpíadas de 2000, em Sydney, no revezamento 4x100m livres.

Muitos acontecimentos vêm rompendo as representações que traduziram o negro em determinadas identidades, no âmbito esportivo e em outros campos sociais. Exemplo disso são as irmãs Wilhams no tênis, Tiger Wods no golfe, Rogério Clementino, primeiro cavaleiro negro do mundo elitista do hipismo (que irá compor a seleção brasileira nas Olimpíadas de Pequim) e o novo fenômeno da Fórmula 1, talvez, o último baluarte instituído como lugar de branco e rico a ser rompido por uma identidade negra, o inglês Lewis Hamilton, que, no Grande Prêmio do Brasil, em 2007, foi chamado pela repórter Global, como “inglesinho com jeito de jogador de futebol”. Esse comentário alude às representações que são produzidas na mídia do negro no esporte, pois, o fato de ver um afro-inglês na Fórmula 1 remete a algo fora do lugar, quando esse ambiente deveria ser um campo de futebol. Embora Hamilton não tenha nenhum jeito de jogador de futebol, o fato de ser negro, historicamente, o reduz a este esporte.

Também estiveram nos Jogos Pan-americanos, realizados na cidade do Rio de Janeiro em 2007, vários nadadores negros que obtiveram destaque. Este processo de quebra de discursos vem acontecendo com a descentralização de grupos das sociedades, que tentam se parecer homogêneas e de arrazoado chauvinismo. Os grupos étnicos, religiosos, raciais, etc., encobertos por essas supostas identidades nacionais unificadas, vêm procurando emergir e reivindicar outros espaços de atuação.

Finalizando...

O esporte, como grande fenômeno social, deu guarida ao sujeito negro pela sua inserção e representatividade, em algumas modalidades na prática esportiva. Durante muito tempo, o negro ficou estigmatizado nessas modalidades, estabelecidas por discursos científicos que o naturalizaram com habilidades corporais a priori. Esta imagem “natural”, produzida do atleta negro, alude a um outro debate, o da diferença.


Os esportes são um grande meio de se obter fama, dinheiro e sucesso, e é neste caminho que muitos negros pobres do Brasil e do mundo procuram caminhar. Se esforçam cada vez mais para obterem melhores resultados em sua carreira de esportista. Lutam contra a fome, o preconceito e a discriminação, já que vivem em lugares onde a ascensão social é predominante...
A ocidentalização da maneira de ser e ver das pessoas, ou seja, macho, branco, católico, heterossexual, se espraiou e se difundiu para grande parte das sociedades mundiais. Uma concepção de alteridade foi atribuída para aqueles que fugissem a esses padrões pre-estabelecidos e, como conseqüência, remetidos a um lugar diminuto no cenário social. Dentro deste processo de tentativa da homogenização da sociedade, ser diferente não
significa virar objeto de estudo, como são as pessoas negras, mas sim, construtores de sua própria identidade, numa sociedade híbrida, que não quer se amalgamar, e sim, confrontar-se, buscando comparações entre os grupos que formam as populações e o que representam.

Um olhar olhar acerca da história do sujeito negro, saindo dos alicerces em que sempre esteve fixado, e sugerir a reconstrução de outras formas de contextualizar a trajetória dos negr@s, na participação das atividades humanas.

Um afro abraço.

fonte: enciclopedia livre

Nenhum comentário:

Postar um comentário