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domingo, 7 de setembro de 2014

Nossa História um mosaico em construção II:Reis de Cor escura e Nariz Chato...

A aceitação geral da hipótese da origem monogenética e africana da humanidade suscitada pelos trabalhos do professor Leakey tornou possível colocar em termos totalmente novos a questão do povoamento do Egito, e mesmo do mundo. 

Há mais de 150 mil anos, a única parte do mundo em que viviam seres morfologicamente iguais aos homens de hoje era a região dos Grandes Lagos, nas nascentes do Nilo. Essa noção – e outras que não nos cabe recapitular aqui – constitui a essência do último relatório apresentado pelo dr. Leakey no VII Congresso Pan-Africano de Pré-História, em Adis Abeba, em 1971 1. Isso quer dizer que toda a raça humana teve sua origem, exatamente como supunham os antigos, aos pés das montanhas da Lua. Contra todas as expectativas e a despeito das hipóteses recentes, foi desse lugar que o homem partiu para povoar o resto do mundo.
Disso resultam dois fatos de capital importância: (a) necessariamente, os primeiros homens eram etnicamente ho­mogêneos e negróides. A lei de Gloger, que parece ser aplicável também aos seres humanos, estabelece que os animais de sangue quente, desenvolvendo-se em clima quente e úmido, secretam um pigmento negro (melanina) 2. Por­tanto, se a humanidade teve origem nos trópicos, em torno da latitude dos Grandes Lagos, ela certamente apresentava, no início, pigmentação escura, e foi pela diferenciação em outros climas que a matriz original se dividiu, mais tarde, em diferentes raças; (b) havia apenas duas rotas através das quais esses primeiros homens poderiam se deslocar, indo povoar os outros continentes: o Saara e o vale do Nilo. É esta última região que será discutida aqui.
A partir do Paleolítico Superior até a época dinástica, toda a bacia do rio foi progressivamente ocupada por esses povos negróides.Preparem as melhores montarias de seus estábulos", ordenou ele a seus comandantes. A magnífica civilização que construíra as grandes pirâmides havia perdido o rumo, destroçada por medíocres chefes guerreiros.

Evidências da antropologia física sobre a raça dos antigos egípcios
Poder-se-ia pensar que, trabalhando com evidências fisiológicas, as descobertas dos antropólogos poderiam dissipar todas as dúvidas por fornecerem verdades confiáveis e definitivas. Isso não é, de maneira nenhuma, o que acontece: a natureza arbitrária dos

critérios utilizados – para mencionarmos apenas um aspecto -, ao mesmo tempo que afasta qualquer possibilidade de uma conclusão ser aceita sem reservas, introduz tanta discussão supérflua entre os cientistas que às vezes nos perguntamos se a solução do problema não teria estado muito mais próxima se não tivéssemos o azar de abordá-lo sob esse ângulo.
No entanto, embora as conclusões desses estudos antropológicos se detenham um pouco aquém da realidade, elas são unânimes em mencionar a existência de uma raça negra desde as mais distantes épocas da Pré-História até o período dinástico. Não é possível, no presente capítulo, citar todas essas conclusões. Elas estão sumarizadas no Capítulo X de Histoire et Protohistoire d’Egipte (Institut d’Ethnologie, Paris, 1949), do dr. Emile Massoulard. Citaremos apenas alguns itens:
“Miss Fawcett acredita que os crânios de Negadah compõem uma coleção com homogeneidade suficiente para fundamentar a hipótese da existência de uma raça de Negadah. Quanto à altura total do crânio, à altura auricular, do comprimento e largura da face, ao comprimento do nariz, ao índice cefálico e ao índice facial, essa raça parece aproximar-se da raça negra; quanto à largura do nariz, à altura da órbita, ao comprimento do palato e ao índice nasal, ela parece mais próxima dos povos germânicos; assim, os negadenses pré-dinásticos provavelmente se assemelhavam, quanto a algumas de suas características, aos negros e, quanto a outras, às raças brancas” ( pp. 402-3 ).

É importante observar que os índices nasais dos etíopes e dos dravidianos os aproximariam dos povos germânicos, embora ambos pertençam a ra (???) perdeu-se

É importante observar que os índices nasais dos etíopes e dos dravidianos os aproximariam dos povos germânicos, embora ambos pertençam a raças negras.


Essas medidas – que deixariam abertas alternativas possíveis entre os dois extremos, representados pelas raças negra e germânica – dão uma idéia da elasticidade dos critérios empregados. Eis um exemplo:
“Tentando determinar com maior precisão a importância do elemento negróide nas séries de crânios de El-Amra, Abidos e Hou, Thomson e Ran­dall MacIver dividiram-nos em três grupos: 1. crânios negróides (aqueles com índice facial abaixo de 54 e índice nasal acima de 50, isto é, face curta e larga e nariz largo); 2. crânios não-negróides (índice facial acima de 54 e índice nasal abaixo de 50, face comprida e estreita e nariz estreito); 3. crânios intermediários (podem ser atribuídos a indivíduos dos dois primeiros grupos, com base no índice facial ou nas evidências referentes ao índice nasal, e ainda a indivíduos marginais a ambos os grupos). A proporção de negróides no início do período pré-dinástico parece ter sido de 24% de homens e 19% de mulheres, e, no final desse mesmo período, de 25% de homens e 28% de mulheres.
Kieth contestou o valor dos critérios utilizados por Thomson e Randall MacIver para distinguir os crânios negróides dos não-negróides. Sua opinião é de que, se os mesmos critérios fossem aplicados para estudar qualquer série de crânios ingleses contemporâneos, a amostra conteria aproximadamente 30% de tipos negróides” (pp. 420-1).
Pode-se afirmar também o reverso da proposição de Kieth, isto é, que, se o critério fosse aplicado aos 140 milhões de negros que hoje vivem na África negra, no mínimo 100 milhões deles apareceriam “branqueados”. Deve-se enfatizar também que a distinção entre “negróides”, “não-negróides” e “intermediários” não é clara: “não-negróide” não significa de raça branca, e “intermediário”, muito menos.

“Falkenburger retomou o estudo antropológico da população egípcia num trabalho recente, no qual analisa 1 787 crânios masculinos do período que se estende desde o Pré-Dinástico Antigo até nossos dias. Ele distingue quatro grupos principais” (p. 421).

A classificação dos crânios pré-dinásticos nesses quatro grupos dá, para o total do período pré-dinástico, os seguintes resultados: “36% de negróides, 33% de mediterrânicos, I 1 % de cro-magnóides e 20% de indivíduos que não se enquadram em nenhum desses grupos, mas se aproximam dos cro-mag­nóides ou dos negróides”.
A proporção de negróides é definitivamente mais alta do que a sugerida por Thomson e Randall MacIver, a qual, no entanto, Kieth considera muito elevada.
“Os números de Falkenburger refletem a realidade? Não é nossa tarefa decidir. Se estiverem corretos, a polulação pré-dinástica, longe de representar uma raça pura, como disse Elliot Smith, compreendia pelo menos três elementos raciais distintos: mais de um terço de negróides, um terço de mediterrâni­cos, um décimo de cro-magnóides e um quinto de indivíduos mestiços em vários graus” (p. 422).

O fundamental em todas essas conclusões é que, a despeito das discrepâncias que apresentam, o seu grau de convergência prova que a base da população egípcia no período pré-dinástico era negra. Assim, todas elas são incompatíveis com a teoria de que o elemento negro se infiltrou no Egito em período tardio. Pelo contrário, os fatos provam que o elemento negro era preponderante do princípio ao fim da história egípcia, particularmente se observarmos, uma vez mais, que “mediterrânico” não é sinônimo de “branco”; esta­ria mais próximo da “raça morena ou mediterrânica” de Elliot-Smith.
“Elliot-Smith classifica esses protoegípcios como um ramo do que ele chama raça morena, que corresponde à ‘raça mediterrânica ou euro-africana’ de Sergi” (p. 418). O termo “moreno” neste contexto refere-se à cor da pele e é simplesmente um eufemismo de negro 3.
Assim, fica evidente que toda a população egípcia era negra, com exceção de uma infiltração de nômades brancos no período protodinástico.
O estudo de Petrie sobre a raça egípcia revela um elemento classificatório possível muito fecundo, que não deixará de surpreender o leitor.

“Petrie ( . . . ) publicou um estudo sobre as raças do Egito nos períodos pré­-dinástico e proto-dinástico, trabalhando apenas com representações. Além da raça esteatopígica, distinguiu seis diferentes tipos: um tipo aquilino, representante de uma raça líbia de pele branca; um tipo ‘com barba trançada’, pertencente a uma raça invasora, vinda provavelmente das costas do mar Ver­melho; um tipo ‘com nariz pontudo’, proveniente, sem dúvida, do deserto arábico; um tipo ‘com nariz reto’, do Médio Egito; um tipo ‘com barba protu­berante’, do Baixo Egito; e um

tipo ‘com nariz fino’, do Alto Egito. Segundo as representações, teriam assim existido sete tipos raciais diferentes no Egito durante os períodos que estamos considerando. Nas páginas seguintes, veremos que o estudo dos esqueletos parece conferir pouca validade a essas con­clusões” (p. 391) .

Esse modo de classificação dá uma idéia da natureza arbitrária dos critérios utilizados para definir as raças egípcias. Seja como for, é evidente que a antropologia está longe de ter estabelecido a existência de uma raça egípcia branca e, pelo contrário, tenderia a sugerir o oposto.

Nos manuais de maior divulgação, entretanto, a questão é suprimida: na maioria dos casos, afirma-se simples e claramente que os egípcios eram brancos, e o leigo fica com a impressão de que uma afirmação desse tipo deve necessariamente ter como base uma sólida pesquisa anterior. Mas, conforme se mostrou neste capítulo, essa pesquisa não existe. E, assim, gerações após gerações foram enganadas. Muitas autoridades no assunto contornam a dificuldade falando em brancos de pele vermelha e brancos de pele negra, sem que por isso se abale o seu senso de lógica.

“Os gregos chamam a África de Líbia, um nome equivocado ab initio, pois a África contém muitos outros povos além dos assim chamados líbios, que estão entre os brancos da periferia setentrional ou mediterrânica e, portanto, muito afastados dos brancos de pele morena ou vermelha) – os egípcios”. 4

Num livro didático destinado ao curso colegial, encontramos a seguinte frase: “Um negro se distingue menos pela cor da pele (pois existem ‘brancos’ de pele negra) do que por suas feições: lábios grossos, nariz chato…” 5 Apenas com tais distorções das definições básicas é que se pôde branquear a raça egípcia.

E importante ter em mente os exageros dos teóricos da antropossociolo­gia do século passado e do começo deste século, que, em suas microanálises fisionômicas, descobriram estratificações raciais até mesmo na Europa, e particularmente na França, onde, na verdade, havia um único povo, hoje praticamente homogêneo. 6 Atualmente, os ocidentais que valorizam sua coesão nacional evitam zelosamente examinar suas próprias sociedades sob a luz de hipóteses tão divisionistas, mas continuam, irrefletidamente, a aplicar os velhos métodos às sociedades não-européias.

As representações humanas do período proto-hístórico: seu valor antropológico
O estudo das representações humanas realizado por Flinders Petrie, num outro plano, demonstra que o tipo étnico era negro: de acordo com Fetrie, esses povos eram os Anu, cujo nome, que conhecemos desde a época proto­-histórica, era sempre “escrito” com três pilares, nas poucas inscrições subsis­tentes do final do IV milênio antes da era cristã. Os nativos do país são sempre representados com inconfundíveis emblemas de chefia, que não encon­tramos entre as raras representações das outras raças, cujos elementos apare­cem todos como estrangeiros servis, que chegaram ao vale por infiltração (cf. Tera Neter 7 e o rei Escorpião, que Petrie reúne num mesmo grupo: “O rei Escorpião pertencia à raça anu, já citada; além disso, adorava Min e Seti”) 

Como veremos adiante, Min, assim como os principais deuses do Egito, era chamado, na própria tradição egípcia, “o Grande Negro”.
Depois de fazer um apanhado dos vários tipos humanos estrangeiros que disputaram o vale com os negros nativos. Petrie descreve estes últimos, os Anu, nos seguintes termos:
“Além desses tipos, característicos do norte e do leste, existe a raça autóctone dos Anu, ou Annu (escrito com três pilares), povo que constituiu parte dos habitantes da época histórica. O assunto se complica e dá margem a dúvidas se incluirmos todos os nomes escritos com um único pilar; mas, considerando apenas a palavra Annu, escrita com três pilares, descobrimos que esse povo ocupava o sul do Egito e a Núbia; o nome também é utilizado no Sinai e na Líbia. Quanto aos habitantes meridionais do Egito, temos o documento essen­cial: um retrato do chefe Tera Neter, rudemente modelado em relevo em faiança verde vitrificada, encontrado no mais antigo templo de Abidos. O endereço precede o nome, nesse primitivo cartão de visita: ‘Palácio dos Anu na cidade de Hemen, Tera Neter’. Hemen era o nome do deus de Tuphium. Erment, do lado oposto, era o palácio dos Anu do Sul Annu Menti. A próxima localidade ao sul é Aunti (Gefeleyn) e, depois. Aunyt-Seni (Esna)” 9.

Amélineau arrola, em ordem geográfica, as cidades fortificadas construí­das ao longo do vale do Nilo pelos negros anu.
= Ant (Esna)
ou = An = “On” do Sul (hoje Hermonthis)
= Denderah, tradicionalmente, a cidade natal de Ísis
= Uma cidade também chamada “On”, no nomo de Tínis
ou = A cidade chamada “On” do Norte, a célebre Heliópolis
O ancestral comum dos Anu estabelecidos ao longo do Nilo era Ani ou An, nome determinado pela palavra(khet), o qual, desde as primeiras versões do Livro dos Mortos, é atribuído ao deus Osíris.

A esposa de , o deus Ani é a deusa Anet , que é também sua irmã, da mesmã forma que Isis é irmã de Osíris.

A identidade do deus An com Osíris foi demonstrada por Pleyte 10; deve­mos lembrar que Osíris é também cognominado o Anu: “Osíris Ani”. O deus Anu é representado ora pelo símbolo , ora pelo símbolo. As tribos Anuak, que hoje habitam o Nilo superior, teriam alguma relação com os antigos Anu? Pesquisas futuras trarão resposta a esta questão.
Petrie acredita ser possível distinguir entre o povo pré-dinástico, representado por Tera Neter e pelo rei Escorpião (que, já nessa época, é um faraó, como mostram os enfeites em sua cabeça) e um povo dinástico, que adorava o falcão e que provavelmente é representado pelos faraós Narmer 11, Khasekhem, Sanekhei e Zoser 12. Observando-se os rostos reproduzidos na ilustração, percebe-se facilmente que não existem diferenças étnicas entre os dois grupos e que ambos pertencem à raça negra.

O mural da tumba SD 63 (Sequence Date 63) de Hieracômpolis mostra os negros nativos subjugando os invasores estrangeiros, se aceitarmos a interpretação de Petrie: “Abaixo, temos a embarcação negra em Hieracômpolis, pertencente aos homens negros, que aparecem subjugando os homens vermelhos” 13.
O cabo de faca de Djebel el-Arak também mostra cenas de batalhas similares: “Há também combates em que homens negros dominam homens vermelhos” 14. Entretanto, o valor arqueológico desse objeto, que não foi encontrado in situ, mas em poder de um mercador, é menor do que o dos itens anteriores.
O que expusemos acima mostra que as representações dos homens do período proto-histórico, e mesmo do período dinástico, são absolutamente incompatíveis com a idéia de raça egípcia difundida entre os antropólogos ocidentais. Onde quer que o tipo racial autóctone esteja representado com alguma clareza, ele é nitidamente negróide. Em parte alguma elementos indo­-europeus ou semitas são representados como homens livres, nem mesmo como cidadãos comuns a serviço de um chefe local. Eles aparecem invariavelmente como estrangeiros submetidos. As raras representações encontradas trazem sempre marcas inequívocas de cativeiro: mãos atadas atrás das costas ou amarradas sobre os ombros 15. Uma estatueta protodinástica representa um prisioneiro indo-europeu com uma longa trança, de joelhos e as mãos atadas ao corpo. As características do próprio objeto mostram que ele devia ser o pé de um móvel e representava uma raça conquistada 16. A representação é, com freqüência, deliberadamente grotesca, como ocorre com outras figuras protodinásticas, mostrando indivíduos com o cabelo trançado à maneira que Petrie denomina rabo de porco (pigtail). Na tumba do rei Ka (I dinastia), em Abidos, Petrie encontrou uma plaqueta representando um indo-europeu cativo, acor­rentado, com as mãos atrás das costas. Elliot-Smith acha que o indivíduo representado é um semita 17

A época dinástica forneceu também os documentos reproduzidos nas figu­ras 4 e 5 das páginas 49 e 50, que mostram prisioneiros indo-europeus e semitas. Em contraposição, as feições tipicamente negróides dos faraós Narmer, I dinastia, fundador da linhagem faraônica, Zoser, III dinastia, em cuja época todos os elementos tecnológicos da civilização egípcia já eram evidentes, Quéops, o construtor da Grande Pirâmide, um tipo característico da região da atual República de Camarões 18, Mentuhotep, fundador da XI dinastia, negro retinto 19,

Sesóstris I, a rainha Amósis Nefertári, e Amenófis I mostram que todas as classes da sociedade egípcia pertencem à mesma raça negra.
As figuras de 11 a 15 foram incluídas deliberadamente para contrastar tipos semitas e indo-europeus com as fisionomias bastante diferentes dos faraós negros e para mostrar claramente que não há traço de nenhum dos dois pri­meiros tipos na linhagem dos faraós, se excluirmos as dinastias estrangeiras (líbias e ptolomaicas).
É comum contraporem-se as negras da tumba de Horemheb ao tipo egípcio também representado. Na verdade, essa contraposição é falsa: é social e não étnica; há tanta diferença entre uma aristocrata senegalesa de Dacar e as camponesas da África antiga, de mãos calejadas e pés angulosos, quanto entre estas últimas e uma senhora egípcia das cidades da Antigüidade.
Existem duas variantes da raça negra:
– os negros de cabelos lisos, representados na Ásia pelos dravidianos e, na África, pelos núbios e os tubbou ou Tedda, todos com pele negro-azeviche; – os negros de cabelo crespo das regiões equatoriais.
Os dois tipos entraram na composição da população egípcia.

Teste de dosagem de melaninaNa prática, é possível determinar diretamente a cor da pele, e, portanto, a Filiação étnica dos antigos egípcios, através de análises microscópicas de laboratório; duvido que a perspicácia dos pesquisadores que se dedicaram à questão tenha ignorado essa possibilidade.
A melanina, substância química responsável pela pigmentação da pele, é, geralmente, insolúvel e preserva-se por milhões de anos na pele dos animais fósseis 20. Portanto há razões de sobra para que seja facilmente encontrada na pele das múmias egípcias, apesar da lenda persistente segundo a qual a pele das múmias, tingida pelo material de embalsamamento, já não é susce­tível de qualquer análise 21. Embora a melanina se localize principalmente na pele, os melanócitos que penetrarem a derme no nível da epiderme, mesmo onde esta última tenha sido praticamente destruída pelos materiais de embalsamamento, indicam um nível de melanina inexistente nas raças de pele branca. As amostras que eu mesmo analisei foram colhidas no laboratório de antropo­logia física no Museu do Homem, em Paris, das múmias provenientes das escavações de Marietta, no Egito 22. O mesmo método é perfeitamente utilizável para as múmias reais de Tutmés III, Séti I e Ramsés II, do Museu do Cairo, que estão em excelente estado de conservação. Há dois anos tenho pedido – ­em vão – ao curador do Museu do Cairo amostras similares para análise. Não seriam necessários mais do que alguns milímetros quadrados de pele para compor um espécime, com preparações de poucos [m de espessura e clareadas com benzoato de etila. Elas podem ser estudadas à luz natural ou sob luz ultravioleta, que torna os grãos de melanina fluorescentes. De qualquer forma, queremos simplesmente afirmar que a avaliação do nível de mela­nina através de exames de microscópio é um método de laboratório que nos permite classificar os antigos egípcios inquestionavelmente entre as raças negras.

Medidas osteológicas
Dentre os critérios aceitos pela antropologia física para a classificação das raças o das medidas osteológicas (osteometria) talvez seja o menos engana­dor (por oposição à craniometria) para distinguir um homem branco de um negro. Também segundo esse critério, os egípcios pertencem às raças negras. Tal estudo foi realizado pelo eminente sábio alemão Lepsius, no final do século XIX, e suas conclusões continuam válidas: os progressos metodológi­cos subseqüentes, no campo da antropologia física, não invalidaram em nada aquilo que se conhece como “cânone de Lepsius”, que estabelece, em núme­ros redondos, as proporções corporais do egípcio ideal, de braços curtos e tipo físico negróide ou negrito 23.
Grupos sangüíneos
E importante notar que, mesmo hoje, os egípcios, particularmente no Alto Egito, pertencem ao mesmo Grupo B que as populações da África ocidental, no litoral atlântico, e não ao Grupo A2, característico da raça branca antes de qualquer miscigenação 24. Seria interessante estudar a extensão da distribuição do Grupo A2 nas múmias egípcias, o que, aliás, já é possível realizar mediante as técnicas atuais.
A raça egípcia segundo os autores clássicos da Antigüidade
Para os escritores gregos e latinos contemporâneos dos antigos egípcios, a classificação física desses últimos não colocava problemas: os egípcios eram negros, de lábios grossos, cabelo crespo e pernas finas; será difícil ignorar ou subestimar a concordância entre os testemunhos apresentados pelos autores em referência a um fato físico tão evidente quanto a raça de um povo. Alguns dos testemunhos que se seguem são contundentes.

(a) Heródoto, “o pai da História”, – 480 (?) a – 425.
Com relação à origem dos Kolchu 25, ele escreve:
“E, de fato, evidente que os colquídios são de raça egípcia (…) muitos egípcios me disseram que, em sua opinião, os colquídios eram descendentes dos soldados de Sesóstris. Eu mesmo refleti muito a partir de dois indicado­res: em primeiro lugar, eles têm pele negra e cabelo crespo (na verdade, isso nada prova, porque outros povos também os têm) e, em segundo lugar – e este é um indicador mais consistente – os egípcios e os etíopes foram os únicos povos, de toda a humanidade, a praticar a circuncisão desde tempos imemoriais. Os próprios fenícios e sírios da Palestina reconhecem que aprenderam essa prática com os egípcios, enquanto os sírios do rio Termodon e da região de Pathënios e seus vizinhos, os macrons, dizem tê-la aprendido, recentemente, com os colquídios. Essas são as únicas raças que praticam a circuncisão, e deve-se observar que a praticam da mesma maneira que os egípcios. Quanto aos próprios egípcios e aos etíopes, eu não poderia afirmar quem ensi­nou a quem essa prática, pois ela é, evidentemente, muito antiga entre eles. Quanto ao fato de o costume ter sido aprendido através dos egípcios, uma outra prova significativa para mim é o fato de que todos os fenícios que comerciam com a Grécia param de tratar suas partes pudendas conforme a maneira egípcia e não submetem seus filhos à circuncisão” 26.

Heródoto retorna várias vezes ao caráter negróide dos egípcios, e a cada vez o utiliza como dado de observação para discutir teses mais ou menos complexas. Assim, para provar que o oráculo grego de Dodona, no Épiro, era de origem egípcia, um de seus argumentos é o seguinte: “e, quando eles acrescentam que a pomba era negra, dão a entender que a mulher era egípcia”. 27 As pombas em questão – na verdade, eram duas, de acordo com o texto – simbolizam duas mulheres egípcias, que se dizia terem sido trazidas de Tebas, no Egito para fundar oráculos respectivamente na Grécia (Dodona) e na Líbia (oásis de Júpiter Amon). Heródoto não partilha da opinião de Anaxágoras segundo o qual as enchentes do Nilo seriam causadas pelo degelo nas montanhas da Etiópia 28. Apoiava-se no fato de que na Etiópia não chove nem neva, “e lá o calor torna os homens negros” 29.
b) Aristóteles, -384 a -322, cientista, filósofo e tutor de Alexandre, o Grande.
Num de seus trabalhos menores, Aristóteles tenta, com surpreendente ingenuidade, estabelecer uma correlação entre a natureza física e a natureza moral dos seres vivos, e nos fornece evidências sobre a raça egípcio-etíope que confirmam o testemunho de Heródoto. Segundo Aristóteles, “Aqueles que são muito negros são covardes como, por exemplo, os egípcios e os etíopes. Mas os excessivamente brancos também são covardes, como podemos ver pelo exem­plo das mulheres; a coloração da coragem está entre o negro e o branco” 30.
(c) Luciano, escritor grego, + 125 (?) a + 190.

O testemunho de Luçiano é tão explícito quanto os de Heródoto e Aris­tóteles. Ele apresenta dois gregos, Licino e Timolaus, que iniciam um diá­logo:
“Licino [descrevendo um jovem egípcio]: – Este rapaz não é simplesmente preto; ele tem lábios grossos e pernas muito finas (. . .) seu cabelo trançado atrás mostra que não é um homem livre.
Timolaus: – Mas no Egito esse é um sinal das pessoas muito bem-nascidas, Licino. Todas as crianças nascidas livres trançam o cabelo até atingirem a idade adulta. Esse é um costume exatamente oposto ao dos nossos ancestrais, que achavam conveniente, para os velhos, prender o cabelo com um broche de ouro, para mantê-lo em ordem” 31.
(d) Apolodoro, século I antes da era cristã, filósofo grego.
“Egito conquistou o país dos homens de pés negros e chamou-o Egito, a partir de seu próprio nome.” 32
(e) Esquilo, – 525(?) a – 456, poeta trágico e criador da tragédia grega.
Em As Suplicantes, Dânaos, fugindo com suas filhas, as Danaides, e per­seguido por seu irmão, Egito, e os filhos deste, os Egitíados, que querem desposar suas primas à força, sobe em uma colina, olha para o mar e descreve nos seguintes termos os Egitíados que remavam ao longe: “Posso ver a tripulação com seus membros negros e suas túnicas brancas” 33.
Uma descrição similar do tipo egípcio aparece novamente poucas linhas abaixo, no verso 745.
(f) Aquiles Tácio de Alexandria.
Compara os guardadores de gado do Delta aos etíopes e explica que são escuros, como mestiços.
(g) Estrabão, – 58 a aproximadamente + 25.
Estrabão visitou o Egito e quase todos os países do Império Romano. Concorda com a teoria de que os egípcios e os Kolchu são da mesma raça, mas sustenta que as migrações para a Etiópia e Cólquida vieram apenas do Egito.

“Os egípcios estabeleceram-se na Etiópia e na Cólquida.” 34 Não há qual­quer dúvida sobre a concepção de Estrabão a respeito da raça egípcia, pois ele procura, em outra parte, explicar por que os egípcios são mais escuros do que os hindus, circunstância que permitiria a refutação, se necessário, de qual­quer tentativa de confundir “a raça hindu e a raça egípcia”.
(h) Diodoro da Sicília, aproximadamente – 63 a + 14, historiador grego e contemporâneo de César Augusto.
Segundo Diodoro, provavelmente foi a Etiópia que colonizou o Egito (no sentido ateniense do termo, significando que, devido à superpopulação, parte do povo emigrou para o novo território).
“Os etíopes dizem que os egípcios são uma de suas colônias” 35, que foi levada para o Egito por Osíris. Eles afirmam que, no começo do mundo, o Egito era apenas um mar, mas que o Nilo, transportando em suas enchentes grandes quantidades de limo da Etiópia, terminou por colmatá-lo e tornou-o parte do continente (…) Acrescentam que os egípcios receberam deles como de seus autores e ancestrais a maior parte de suas leis.” 36
(i) Diógenes Laércio.
Sobre Zenão, fundador da escola estóica (- 333 a – 261), Diógenes escreveu o seguinte: “Zenão, filho de Mnaseas ou Demeas, era natural do Cício, em Chipre, uma cidade grega que havia recebido alguns colonos fenícios”. Em suas Vidas, Timóteo de Atenas descreve Zenão como tendo o pescoço torcido. Apolônio de Tiro diz que ele era frágil, muito alto e negro, daí o fato, citado por Crisipo no Primeiro Livro de seus Provérbios de algu­mas pessoas o chamarem “broto de videira egípcio” 37.

(j) Amiano Marcelino, aproximadamente + 330 a + 400, historiador latino e amigo do imperador Juliano.
Com ele, atingimos o ocaso do Império Romano e o fim da Antigüi­dade clássica. Quase nove séculos se passaram entre o nascimento de Ésquilo e Heródoto e a morte de Amiano Marcelino, nove séculos durante os quais os egípcios, em meio a um mar de raças brancas, se miscigenaram constante­mente. Pode-se dizer sem exagero que, no Egito, uma casa em cada dez incluía um escravo branco, asiático ou indo-europeu 38.
É notável que, apesar de sua intensidade, a miscigenação não tenha alte­rado significativamente as constantes raciais. De fato, Amiano Marcelino es­creve: “. . . a maior parte dos homens do Egito são morenos ou negros, com uma aparência descarnada” 39. Ele também confirma o depoimento já citado sobre os Kolchu: “Além destas terras está a pátria dos Camarita 40, e o Fásis, com sua correnteza veloz, banha o país dos Kolchu, uma antiga raça de origem egípcia” 41.
Esta rápida revisão dos testemunhos apresentados pelos antigos escritores greco-latinos sobre a raça egípcia mostra que o grau de concordância entre eles é impressionante, constituindo um fato objetivo difícil de subestimar ou ocultar. A moderna egiptologia oscila constantemente entre esses dois pólos.
Foge à regra o testemunho de um cientista honesto, Volney, que viajou pelo Egito entre 1783 e 1785 – isto é, em pleno período da escravidão negra – e fez as seguintes observações sobre os coptas (representantes da verda­deira raça egípcia, aquela que produziu os faraós).

“Todos eles têm faces balofas, olhos inchados e lábios grossos, em uma palavra, rostos realmente mulatos. Fiquei tentado a atribuir essas características ao clima, até que, visitando a Esfinge e olhando para ela, percebi a pista para a solução do enigma. Completando essa cabeça, cujo traços são todos caracteristicamente negros, lembrei-me da conhecida passagem de Heródoto: “De minha parte, considero os Kolchu uma colônia do Egito porque, como os egípcios, eles têm a pele negra e o cabelo crespo”. Em outras palavras, os antigos egípcios eram verdadeiramente negros, da mesma matriz racial que os povos autóctones da África; a partir desse dado, pode-se explicar como a raça egípcia, depois de alguns séculos de miscigenação com sangue romano e grego, perdeu a coloração original completamente negra, mas reteve a marca de sua configuração. É mesmo possível aplicar essa observação de maneira ampla, e afirmar, em princípio, que a fisionomia é uma espécie de documento, utilizável em muitos casos para discutir ou elucidar os indícios da história sobre a origem dos povos…”
Depois de ilustrar esta proposição com o caso dos normandos, que, nove­centos anos depois da conquista da Normandia, ainda se assemelham aos dinamarqueses, Volney acrescenta:
“Mas, voltando ao Egito, sua contribuição para a história fornece muitos temas para a reflexão filosófica. Que temas importantes para meditação: a atual barbárie e ignorância dos coptas, considerados como tendo nascido do gênio dos egípcios e dos gregos; o fato de esta raça de negros, que hoje são escravos e objeto de nosso menosprezo, ser a mesma a quem devemos nossa arte, nossas ciências e mesmo o uso da palavra escrita; e, finalmente, o fato de, entre os povos que pretendem ser os maiores amigos da liberdade e dahumanidade ter-se sancionado a escravidão mais bárbara e questionado se os negros teriam cérebros da mesma qualidade que os cérebros dos brancos!” 42

A esse depoimento de Volney, Champollion-Figeac, irmão de Cham­pollion, o Jovem, iria responder nos seguintes termos: “Os dois traços físicos apresentados – pele negra e cabelo crespo – não são suficientes para rotular uma raça como negra, e a conclusão de Volney quanto à origem negra da antiga população do Egito é nitidamente forçada e inadmissível”. 43
Ser preto da cabeça aos pés e ter cabelo crespo não é suficiente para fazer de um homem um negro! Isso nos mostra o tipo de argumentação cap­ciosa a que a egiptologia tem recorrido desde seu nascimento como ciência. Alguns estudiosos sustentam que Volney estava tentando desviar a discussão para um plano filosófico. Mas basta reler Volney: ele simplesmente faz inferências a partir de fatos materiais brutos que se impõem como provas aos seus olhos e à sua consciência.

Os egípcios vistos por si mesmos
Não é perda de tempo conhecer o ponto de vista dos principais envolvidos. Como os antigos egípcios viam a si mesmos? Em que categoria étnica se colocavam? Como denominavam a si mesmos? A língua e a literatura que os egípcios da época faraônica nos deixaram fornecem respostas explícitas a essas questões, que os acadêmicos insistem em subestimar, distorcer e “interpretar”.
Os egípcios tinham apenas um termo para designar a si mesmos: = kmt = “os negros” (literalmente) 44. Esse é o termo mais forte existente na língua faraônica para indicar a cor preta; assim, é escrito com um hieróglifo representando um pedaço de madeira com a ponta carbonizada, e não com escamas de crocodilo 45. Essa palavra é a origem etimológica da conhecida raiz kamit, que proliferou na moderna literatura antropológica. Dela deriva, provavelmente, a raiz bíblica kam. Portanto foi necessário distorcer os fatos para fazer com que essa raiz atualmente signifique “branco” em egiptologia, enquanto, na língua-mãe faraônica de que nasceu, significava “preto­-carvão”.
Na língua egípcia, o coletivo se forma a partir de um adjetivo ou de um substantivo, colocado no feminino singular. Assim, kmt, do adjetivo = km = preto, significa rigorosamente “negro”, ou, pelo menos, “homens pretos”. O termo é um coletivo que descrevia, portanto, o conjunto do povo do Egito faraônico como um povo negro.

Em outras palavras, no plano puramente gramatical, quando, na língua faraônica, se deseja indicar “negros”, não se pode usar nenhuma outra palavra senão a que os egípcios usavam para designar a si mesmos. Além disso, a língua nos oferece um outro termo, = kmtjw = os negros, os homens pretos (literalmente) = os egípcios, opondo-se a “estrangeiros”, que vem da mesma raiz, km, e que os egípcios também utilizavam para descrever a si mesmos como um povo distinto de todos os povos estrangeiros 46. Esses são os únicos adjetivos de nacionalidade usados pelos egípcios para designarem a si mesmos, e ambos significam “negro” ou “preto” na língua faraônica. Os acadêmicos raramente os mencionam ou, quando o fazem, traduzem-nos por eufemismos, tais como “os egípcios”, nada dizendo sobre seu sentido etimológico 47. Eles preferem a expressão = Rmt kmt = os homens do país dos homens negros ou os homens do país negro.
Em egípcio, as palavras são normalmente seguidas de um determinante, indicando seu sentido exato; para essa expressão particular, os egiptólogos sugerem que = km = preto e que a cor qualifica o determinanteque o segue e que sígnifica “país”. Assim, eles alegam que a tradução deveria ser “a terra negra”, a partir da cor do limo ou “o país negro”, e não “o país dos homens negros”, como tenderíamos a interpretar hoje em dia, tendo em mente a África branca e a África negra. Talvez estejam certos; mas, se apli­carmos essa regra rigorosamente a = kmit, seremos obrigados a “admitir que aqui o adjetivo ‘preto’ qualifica o determinante, que significa todo o povo do Egito, representado pelos dois símbolos de ‘homem’ e ‘mu­lher’ e os três traços embaixo, designando plural”. Assim, se é possível levan­tar alguma dúvida sobre a expressão = kme não é possível fazê-lo no caso dos dois adjetivos de nacionalidade kmt e kmtjw, a menos que se estejam escolhendo os argumentos sem nenhum critério.

É interessante notar que os antigos egípcios nunca tiveram a idéia de aplicar esses qualificativos aos núbios e a outras populações da África, para distingui-las deles mesmos, da mesma forma que um romano, no apogeu do Império, não usaria um adjetivo de “cor” para se distinguir dos germânicos da outra margem do Danúbio, que eram da mesma matriz étnica mas se encontravam ainda num estádio de desenvolvimento pré-histórico.
Nos dois casos, ambos os lados pertenciam ao mesmo universo, em termos de antropologia física; portanto os termos usados para distingui-los relacionavam-se ao grau de civilização ou tinham sentido moral. Para o romano civilizado, os germânicos, da mesma matriz étnica, eram bárbaros. Os egípcios usavam a expressão= nahas para designar os núbios; e nahas 48, em egípcio, é o nome de um povo, sem conotação de cor. Trata-se de um equívoco deliberado traduzi-lo como “negro”, como aparece em quase todas as publicações atuais.

Os epítetos divinos
Finalmente, preto ou negro é o epíteto divino invariavelmente utilizado para designar os principais deuses benfeitores do Egito, enquanto os espíritos malévolos são qualificados como desrêt = vermelho. Sabemos que, entre os africanos, esse termo se aplica às nações brancas; é quase certo que isso seja verdade também para o Egito mas, neste capítulo, quero ater-me ao plano dos fatos menos sujeitos a controvérsias.
Os deuses recebiam os, seguintes epítetos:
= kmwr = o “Grande Negro” para Osíris 49;
= km = negro + o nome do deus 50;
= kmt = negro + o nome da deusa 51.

O qualificativo km (negro), , é aplicado a Hátor, Apis, Min, Tot, etc. setkmt = a mulher negra = Ísis 52. Por outro lado, seth, o deserto estéril, é qualificado pelo termo desrêt = vermelho 53. Os animais selvagens, que Hórus combateu para criar a civilização, são qualificados como desrêt = vermelhos, especialmente o hipopótamo 54. Analogamente, os seres malévolos expulsos por Tot são des = = desrtjw = os verme­lhos. Esse termo é o inverso gramatical de Kmtjw, e sua construção segue a mesma regra que a da formação de nisbés.

Testemunho da Bíblia
A Bíblia nos diz: “…os filhos de Cam [foram] Cush, e Mizraim (isto é, Egito), e Fut, e Canaã. E os filhos de Cush, Saba, e Hevila, e Sabata, e Regna, e Sabataca” 55.
De maneira geral, toda a tradição semítica (judaica e árabe) classifica o antigo Egito entre os países dos negros.
A importância desses depoimentos não pode ser ignorada, porque os judeus eram povos que viviam lado a lado com os antigos egípcios e, algumas vezes, em simbiose com estes, e nada tinham a ganhar apresentando uma falsa imagem étnica dos mesmos. Da mesma forma, neste caso não se sustenta a noção de uma interpretação errônea dos fatos 56.

Dados culturais
Dentre os inúmeros traços culturais idênticos documentados no Egito e na África negra dos nossos dias, vamos referir-nos apenas à circuncisão e ao totemismo.
Segundo o excerto de Heródoto citado anteriormente, a circuncisão é de origem africana. A arqueologia confirmou a opinião do Pai da História: Elliot-Smith pôde comprovar, a partir do exame de múmias bem conservadas, que a circuncisão já era praticada, entre os egípcios, em tempos que remontam à era proto-histórica 57, isto é, a antes de – 4000.
O totemismo egípcio manteve sua vitalidade até o período romano 58, e Plutarco também o menciona. As pesquisas de Amélineau 59, Loret, Moret e Adolphe Reinach demonstraram claramente a existência de um sistema totêmico no Egito, refutando os defensores da tese da zoolatria.
“Se reduzirmos a noção de totem à de um fetiche, geralmente animal, representando uma espécie com a qual a tribo acredita ter laços especiais, renovados periodicamente, e que é carregado para a batalha como um estandarte; se aceitarmos essa definição de totem, mínima mas adequada, pode-se dizer que não há outro país onde o totemismo tenha tido um reinado mais brilhante do que no Egito, e nenhum outro lugar onde ele possa ser mais bem estudado” 60



Afinidade lingüística
O walaf 61, língua senegalesa falada no extremo oeste da África, na costa atlântica, é, talvez, tão próxima do egípcio antigo quanto o copta. Recentemente foi feito um estudo exaustivo sobre essa questão 62. Neste capítulo, apresenta­mos apenas o suficiente para mostrar que o parentesco entre as línguas do antigo Egito e as da África não é uma suposição, mas um fato demonstrável e impossível de ser ignorado pelos círculos acadêmicos.
Como veremos, o parentesco é de natureza genealógica.

Egípcio Copta Walaf
= kef = agarrar, pegar, despojar (de alguma coisa) 63 (dialeto saídico) keh = domesticar 64 Kef = apanhar uma presa.

Conclusão
A estrutura da realeza africana, em que o rei é morto, real ou simbolicamente, depois de um reinado de duração variável – em torno de oito anos -, lembra a cerimônia de regeneração do faraó, através da festa de Sed. Os ritos de circuncisão já mencionados, o totemismo, as cosmogonias, a arquitetura, os instrumentos musicais, etc. também são reminiscências do Egito na cultura da África Negra 70. A Antigüidade egípcia é, para a cultura africana, o que é a Antigüidade greco-romana para a cultura ocidental. A constituição de um corpus de ciências humanas africanas deve ter isso como base.
Çompreende-se como é difícil escrever um capítulo como este numa obra deste gênero, onde o eufemismo e a transigência via de regra, prevalecemcem. Por isso, na tentativa de evitar o sacrifício da verdade científica, insistimos na realização de três sessões preliminares à preparação deste volume o que foi aceito na sessão plenária realizada em 1971 71. As primeiras duas sessões levaram à realização do simpósio do Cairo, de 28 de janeiro a 3 de fevereiro de 1974 72. Gostaria de mencionar algumas passagens do relatório desse simpósio. O professor Vercoutter, que fora encarregado pela Unesco de escrever o relatório preliminar, reconheceu, depois de uma discussão exaustiva, que a idéia convencional de que a população egípcia se dividia eqüitativamente em brancos, negros e mestiços não podia ser mantida:
“O professor Vercoutter concordou que não se deve tentar estimar porcentagens; elas nada significariam na medida em que não se dispõe de dados estatísticos confiáveis para calculá-las”.
Sobre a cultura egípcia consta no relatório:
“O professor Vercoutter observou que, de seu ponto de vista, o Egito era africano quanto à escrita, à cultura e à maneira de pensar”
O professor Leclant, por sua vez, “reconheceu o mesmo caráter africano no temperamento e maneira de pensar egípcios”.

Quanto à lingüística, afirma-se no relatório que “este item, ao contrário dos outros discutidos anteriormente, revelou um alto grau de concordância entre os participantes. O relatório elaborado pelo professor Diop e o relatório do professor Obenga foram considerados muito construtivos”.
Da mesma maneira, o simpósio rejeitou a idéia de que o egípcio faraônico era uma língua semítica. “Abordando questões mais amplas, o professor Sau­neron chamou a atenção para o interesse do método sugerido pelo professor Obenga, seguindo o professor Diop. O egípcio manteve-se como uma língua estável por um período de, pelo menos, 4 500 anos. O Egito situa-se no ponto de convergências externas, e seria de se esperar, portanto, que se fizessem em­préstimos de outras línguas; mas as raízes semíticas se reduzem a algumas cen­tenas, para um total de muitos milhares de palavras. A língua egípcia não pode ser isolada de seu contexto africano, e sua origem não pode ser total­mente explicada a partir das línguas semíticas. Portanto é natural que se espere encontrar na África línguas aparentadas ao egípcio”.
A relação genética – isto é, não acidental – entre o egípcio e as lín­guas africanas foi reconhecida: “O professor Sauneron observou que o método utilizado era muito interessante, uma vez que a similaridade entre os sufixos dos pronomes da terceira pessoa do singular no egípcio antigo e na língua walaf não poderia ser mera casualidade; ele espera que se tente no egípcio antigo e na língua walaf reconstituir uma língua paleoafricana, tomando como ponto de partida as línguas atuais”.

Na conclusão geral do relatório, afirmava-se: “a despeito das especifica­ções constantes do texto preparatório distribuído pela Unesco, nem todos os participantes prepararam comunicações comparáveis às dos professores Cheikh Anta Diop e Obenga, meticulosamentc elaboradas. Conseqüentemente, houve uma considerável falta de equilíbrio nas discussões”.
Assim, escreveu-se no Cairo uma nova página da historiografia africana. O simpósio recomendou que se fizessem novos estudos sobre o conceito de raça. Tais estudos têm sido realizados desde então, mas não trouxeram nada de novo à discussão histórica. Dizem-nos que a biologia molecular e a genética reconhecem apenas a existência de populações, e que o conceito de raça já não tem qualquer significado. No entanto, sempre que aparece alguma questão sobre a transmissão de doenças hereditárias, o conceito de raça, no sentido mais clássico do termo, reaparece, pois a genética nos ensina que “a anemia falciforme ocorre apenas entre os negros”. A verdade é que todos estes “antropólogos” já esquematizaram em suas mentes as conclusões deriva­das do triunfo da teoria monogenética da humanidade, sem ousar dizê-lo expli­citamente, pois, se a humanidade teve origem na África, foi necessariamente negróide antes de se tornar branca através de mutações e adaptações, no final da última glaciação na Europa, no Paleolítico Superior. E agora compreen­de-se muito melhor por que os negróides grimaldianos ocuparam a Europa 10 mil anos antes do aparecimento do Homem de Cro-Magnon, protótipo da raça branca (por volta de – 20000).

O ponto de vista ideológico também é evidente em estudos aparentemente objetivos. Na
história e nas relações sociais, o fenótipo – isto é, o indivíduo ou o povo tais como são percebidos – é o fator dominante, em oposição ao genótipo. A genética atual nos autoriza a imaginar um Zulu com o “mesmo” genótipo de Vorster. Isso significa que a história que testemunhamos colo­cará esses dois fenótipos – isto é, os dois indivíduos – no mesmo nível em todas as suas atividades nacionais e sociais? Certamente não – a oposição continuará sendo étnica, e não social. Este estudo torna necessário que se reescreva a história da humanidade a partir de um ponto de vista mais científico, levando em conta o componente negro-africano, que foi, por longo tempo, preponderante. Assim, é, doravante, possível constituir um corpus de ciências humanas negro-africanas apoiado em bases históricas sólidas, e não suspenso no ar. Finalmente, se é fato que só a verdade é revolucionária, deve-se acrescentar que só um rapprochement realizado com base na verdade será dura­douro. Não se contribui para a causa do progresso humano lançando um véu sobre os fatos.
A redescoberta do verdadeiro passado dos povos africanos não deverá ser um fator de divisão, mas contribuir para uni-los, todos e cada um, estrei­tando seus laços de norte a sul do continente, permitindo-lhes realizar, juntos, uma nova missão histórica para o bem da humanidade, e isto em consonância com os ideais da Unesco 73.

O mais provável, contudo, é que os motivos do líder núbio continuem mergulhados na obscuridade, tal como a história de seu povo.

Um afro abraço.

fonte:Texto extraído de A África Antiga/ coordenador do volume G. Mokhtar; (tradução Carlos Henrique Davidoff… et al.). – São Paulo: Ática (Paris): Unesco; 1983.
(História Geral da África, v.2).Acima do título: Comitê Científico Internacional para a Redação de uma História Geral da Áftica (Unesco).

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